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Quarta-feira, 28 abril de 2010   edições anteriores
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  Conversa com Deus em meio à guerra

Elias Andreatto dirige ‘Ghetto’, que mostra visão de judeu polonês sobre o holocausto

Beth Néspoli

Em 1946, um ano após o fim da Segunda Guerra, um jornal judaico de Buenos Aires, o Idiche Zeitung, publicou um relato impressionante, intitulado ‘Yossel Rakover Dirige-se a Deus’. Trata-se do diário de um judeu polonês encontrado numa garrafa, nos escombros do gueto de Varsóvia. Escrito em 1943, relata, em detalhes, o estrondo das bombas, os gritos à distância, tiros, paredes que desabam, a fome, a sede. De seu esconderijo, cercado de cadáveres, Yossel ora descreve o que vê, conduzindo assim o leitor para dentro do gueto em ruínas; ora narra experiências vivenciadas recentemente, como a perda de alguns familiares e amigos; ora ainda reflete sobre o que se passa com a perplexidade de quem tem fé e precisa mantê-la, mesmo vivendo todo aquele horror.

O relato é tão vivo que, durante muito tempo, acreditou-se na sua suposta autenticidade. Certamente, era uma das intenções de seu autor, o judeu lituano Zvi Kolitz (1919-2002), que o escreveu por sugestão do editor M. Stoliar, a quem conhecera em 1946, ao participar de um Congresso Judaico na capital argentina. Em 1946, o texto provocou forte efeito. Tinha a intensidade das primeiras denúncias sobre o Holocausto ou, pelo menos, sobre a dimensão devastadora do massacre de judeus durante o nazismo.

O ator e diretor Elias Andreatto não ignora a ação do tempo sobre o texto em sua transposição teatral, intitulada simplesmente Guetto. Há alguns anos, ele foi atraído pelo potencial cênico e pela intensidade desse relato e, finalmente, convidou o ator Fábio Herford para interpretá-lo sob sua direção. Após passar pelo Festival de Teatro de Curitiba, Ghetto estreia hoje no Teatro Eva Herz, na Livraria Cultura da Av. Paulista.

De saída, o espectador depara com uma cenografia-instalação que inclui pilhas de sapatos, um piano no qual o ator executa uma composição de sua autoria e projeções esmaecidas de imagens de campos de concentração. A atmosfera quase delicada que remete ao passado contrasta com o depoimento do personagem, em tempo real, que traz a intensidade de quem se vê diante da morte.

“A mim atrai a lucidez desse homem que conversa com Deus. O que mais gosto nesse texto é da sua inteligência. Diante da pior tragédia, ele expressa revolta pelo que ocorre, mas sua fé se mantém inabalável. Ao discutir com Deus, ele resgata a essência da Torá, que é pura filosofia de vida.”



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