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'O politicamente correto nos livros é uma besteira'
A autora Tatiana Belinky, 90 anos, faz releituras de contos de fada e questiona a ‘patrulha’ dos adultos
FERNANDA BRAMBILLA, fernanda.brambilla@grupoestado.com.br
A aparente fragilidade de uma senhora de 90 anos não vai além dos cabelos brancos ralos de Tatiana Belinky. O olhar jovial e aguçado delata que seus mais de 100 livros dedicados ao público infanto-juvenil não lhe bastam, nem as menções honrosas e prêmios que acompanham a carreira de autora, tradutora e educadora, como o Jabuti, de 1989. Tatiana quer mais. “Todo ano há novas crianças, isso me mantém na ativa. As crianças me ensinaram quase tudo o que eu sei”, resume.
Falar em aposentadoria, então, é quase ofensa. “As pessoas sempre me perguntam qual será meu último livro”, diz, e abre o sorriso. “Sempre digo que estou no penúltimo. O último livro só vai existir quando eu morrer.”
Atualmente, Tatiana trabalha em releituras de contos de fada que ganham questionamentos na voz da garota Lenita, personagem/alter ego da autora (Editora Paulinas). “Discuto questões equivocadas de histórias célebres. O Gato de Botas, por exemplo, é tachado de mau-caráter. Mas ele é um mentiroso do bem, não é um vilão”, diverte-se. O texto que envia à editora ainda é escrito a mão. “Meu intuito é mostrar à criança que, assim como na vida, nos livros também não é tudo preto e branco. Falar em politicamente correto é besteira.”
A inspiração para escrever também vem das memórias que ela não cansa de passar aos filhos, netos e bisnetos. Foi ouvindo os poemas recitados pelo pai, Aron, que Tatiana aprendeu a ler, aos 5 anos, em São Petersburgo, na Rússia. Aos 10 anos, já poliglota, ela embarcou com os pais em uma viagem de transatlântico ao Brasil. Tinha início a grande aventura que seria sua vida.
Alguns capítulos têm em especial toques de best-seller. Foi em uma festa de casamento que ela conheceu o futuro marido, o também literato Júlio Gouveia (1914 - 1988). “Ele estava sentado debaixo de uma das mesas, sozinho, com uma garrafa de champanhe. Quando me viu, estendeu a mão e me disse: ‘Tatiana, muito prazer. Quer se casar comigo?’”, conta. Apenas seis meses após a união, seu pai, Aron, morreu em um desastre aéreo. “Atendi ao telefone e ouvi uma voz muito solene: ‘O avião que vinha do Rio de Janeiro caiu no mar. Todos morreram.’”
Seu ídolo dos tempos de moça, Monteiro Lobato (1882-1948) se tornaria um grande amigo. Foi o próprio escritor quem incentivou a levar O Sítio do Picapau Amarelo para a televisão, nos anos 50. “Nunca me esqueço de quando ele ligou em casa tarde da noite e disse: ‘Aqui é Monteiro Lobato’, com um vozeirão que me deixou tonta. Eu não acreditei, e disse: ‘Ah aqui é o Rei George!’”, imita.
A quem lhe pergunta sobre a perda de força da leitura frente ao apelo tecnológico da Internet e do videogame, Tatiana Belinky é desdenhosa: “As crianças continuam iguais como há 30 anos. O mundo em volta delas mudou radicalmente, mas elas continuam as mesmas.” Para ela, a falha não é dos pequenos, mas dos adultos.
“Toda criança aprende a ler e a gostar de ler naturalmente”, diz Tatiana. “Sem essa de falar nhenhenhé, tatibitati. As pessoas esquecem que criança é coisa séria. E merece ser levada a sério.”
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