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Ele não vai até o fim do contrato
Juliano Costa
O avião pousa em Porto Alegre, Marcos faz o sinal da cruz e fala para si mesmo: “É a penúltima viagem do ano.”
Aos 36, o goleiro está cansado da rotina aeroporto-hotel. Enquanto o avião se aproximava da capital gaúcha, ele não tirava os olhos da paisagem. “Olha lá quanto laguinho bão pra se pescar! Daqui a um tempinho eu tô lá, com um isopor do lado.”
Marcos diz que ainda tem prazer em competir e, por isso, sente um “desgosto danado” com a possibilidade de o título brasileiro escapar por entre os dedos.
Mas o prazer está acabando e ele realmente acha que esta era sua grande chance de ser campeão nacional como titular (era reserva em 94), apesar de ainda ter mais dois anos de contrato. “Sinceramente? Acho que não vou aguentar até lá, não.”
O goleiro aponta para as pernas. Elas estão mais confortáveis que a dos demais passageiros, já que estamos na fileira da saída de emergência. Mas o desejo de Marcos é que estivessem estiradas em um outro lugar. “Eu ando todo dolorido. Meu joelho dói, meus ombros doem, as cirurgias (no pulso esquerdo) doem. Depois dos 36 anos, você nunca está 100%. É, no máximo, 60%.”
Pelo contrato assinado no primeiro semestre, Marcos poderia ficar como jogador até o final de 2011 e então trabalhar por mais dois anos na comissão técnica, em cargo a ser definido.
Não há multa se decidir parar antes. “O que está acertado é que eu terei dois meses de férias logo depois de parar de jogar.”
O que mais o irrita são as viagens de avião. “O pessoal quer fazer campeonato igual na Europa, mas esquece que o Brasil é muito grande. Jogar Campeonato Português deve ser teta, porque Portugal é um ovo. Mas no Brasil um dia você está em Recife e no outro em Porto Alegre. É desgastante. Olha meu joelho: todo zoado.”
As brincadeiras com os outros jogadores ajudam a aliviar a tensão. Apesar de ser o mais velho do elenco alviverde, Marcos se comporta muitas vezes como criança. Quando o avião já estava para decolar, ele simulou uma ligação para a esposa no celular: “Benhê, se eu morrer, anota a senha do banco: é cinco... dois... tu, tu, tu, tu, tu.” Todos os passageiros, claro, caíram na gargalhada.
Deyvid Sacconi e Marcão são os alvos prediletos. Toda e qualquer figura estranha que aparece na frente de Marcos logo é chamada de “Sacconi” - e o meia responde, chamando-o de Eduardo Martini, o goleiro careca do Avaí. Marcão é o Theo Becker, do programa A Fazenda, da Record. “Não pela beleza”, observa Marcos. “Mas por ser completamente xarope.”
O interessante é que o camisa 12 muda rapidamente o tom da conversa. Quem não está acostumado se assusta. Logo depois de espalhar alguns apelidos, ele reafirma que “o problema do time é que ele é unido demais.”
Marcos chegou ao Verdão em 92, na época em que as feras da Parmalat começavam a pintar no clube. Os relatos de racha no elenco eram frequentes. A história mais famosa é a da briga entre o zagueiro Antonio Carlos e o atacante Edmundo. Os dois não se suportavam. Mas conquistaram vários títulos juntos. “O que falta aqui é um cobrar mais do outro. Eu tentei, fiz minha parte e cansei”, diz Marcos. “Mas ainda tenho de confiar no time. Vamos ver o que rola.”
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