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Quarta-feira, 18 novembro de 2009   edições anteriores
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  A paciência está no fim

Marcos lamenta ‘falta de personalidade’ do time e diz que, se não ganhar hoje, já era

Juliano Costa

Porto Alegre - Com Marcos não tem firula. No voo de uma hora e meia para Porto Alegre, o goleiro colocou o dedo na ferida, expondo os problemas que, a seu ver, levaram o time da primeira para a terceira colocação. E se não ganhar do Grêmio, diz ele, “já era”.

JT: Uma semana após o tropeço contra o Sport e seu desabafo na saída do campo, como você se sente? O grupo ainda tem ânimo?

Marcos: Estou tranquilo e o grupo está animado, como sempre. Esse é o problema. É sempre muita animação no voo, no hotel, no vestiário. Mas em campo nem todo mundo faz o seu e ninguém cobra ninguém. Só eu falo minhas groselhas. E aí sai: “Marcos desabafa.” Não é desabafo. É cobrança. Tem de cobrar.

E só você faz isso?

Sabe qual é o meu problema? Sou palmeirense e estou há 17 anos aqui. Eu me envolvo demais, não consigo me desligar. Hoje em dia a maioria dos jogadores não está nem aí. Tem muita gente paparicada, mimada. O cara erra o chute, erra o cruzamento, e ninguém vai cobrar dele. Aí o cara sai e vai jogar em outro time. Mas se eu erro, o mundo cai em cima, porque todos esperam de mim o melhor, o tempo todo.

Você está cansado, então?

Demais. Tenho mais dois anos de contrato e acho que não vou aguentar.

Acha que não dá para ser campeão no ano que vem?

Como é que eu vou saber? Às vezes você monta um baita time, investe, contrata e não consegue nada. Achei que esta era a grande chance, porque chegamos a abrir não sei quantos pontos de distância. Mas mesmo na frente, eu alertei: tinha coisa errada, muita empolgação. Sabia que eu nem conseguia dormir nessa época? Porque eu ficava pensando exatamente isso: vai dar m*...

Marcos, por favor, explique para quem não é jogador profissional: como pode um time cair tanto de rendimento?

(pausa) Não dá pra explicar. Posso até tentar achar palavras bonitas ou usar o discurso que todo mundo usa, mas não vai ser verdadeiro. Aliás, esse é outro problema meu: sempre falo o que penso, o que sinto. Se eu chegasse na sala de imprensa e falasse “não vamos jogar a toalha”, tudo ficaria lindo. Mas como eu vou falar isso se eu sei que ficou difícil (a conquista do título)?


Essa expressão de não jogar a toalha foi usada pelo Diego Souza na segunda-feira. Você está se referindo a ele?


Não, nada a ver. É que todo jogador fala isso. As entrevistas são iguais. Só eu sou diferentão (risos). Os torcedores de outros times me adoram por isso: não falo como jogador. Vamos ser sinceros: falta estudo pra gente aí.

Qual sua formação?

Fui até o terceiro ano do segundo grau, mas não completei.

O presidente Lula costuma dizer que inteligência não depende da formação escolar. Concorda?

Concordo. Já vi cada absurdo em festa de universitário.

Mas tenho certeza de que todo mundo sabe quando é atacado. Ninguém vem tirar satisfação no dia seguinte às suas críticas?

Não e eu te juro: não estou nem aí. Se fica de bico, se não fica, estou pouco ligando. Só garanto uma coisa: o meu eu faço. E ninguém vai me ver criticando jogador que se esforça em treino. Ou você já me viu reclamar do Marcão? Do Danilo? Esses caras ralam pra caramba. Mas tem gente que acha que já sabe tudo.

Quem?

Ah, não posso falar. Mas entra naquilo que eu estava falando: o cara é muito paparicado.

E o rendimento de um afeta o de outros?

Claro. É um jogo coletivo. Futebol são três coisas: treino, concentração e personalidade. Treino não falta. Concentração a gente faz direto. O que sobra? Personalidade. Se o cara não tem pra assumir “na hora do vamos ver”, não rola. E por que não posso criticar? Jogador vive em bola de vidro? É inatingível? Eu alertei cinco vezes. Na sexta, perdi a paciência.

Se não ganhar do Grêmio, já era?

Mesmo se ganhar fica difícil, porque Flamengo e São Paulo dificilmente vão tropeçar. Mas se não ganhar, adeus. Aí já era.

E a vaga na Libertadores?

Aí não, porque ainda teríamos dois jogos para recuperar.

Quando o caldo desandou?

Naquele empate com o Avaí, o primeiro da série de resultados ruins. Saímos perdendo por 2 a 0, empatamos e achamos que era um baita resultado. Faz as contas: se a gente tivesse ganho pelo menos dois jogos desses adversários que estão lá atrás, como Sport e Fluminense, estaríamos folgados na frente, podendo ser campeões na próxima rodada, contra o Atlético-MG em casa.

Quando o Palmeiras liderava com folga, você dizia que o time não tinha nada muito além do Fluminense, que era o lanterna...

Pois é, e naquela época me chamaram de louco, lembra? Futebol hoje está muito nivelado. O que decide é a concentração em campo. Pode ver: os times que estão brigando agora, o Flamengo e o São Paulo, são os mais regulares. Já a gente começou bem, mas depois caiu muito.

O Muricy tem culpa?

Não, ele faz o que dá. O problema é que a gente mudou o estilo de jogo. Fechadinho estava tudo beleza. Quando viramos líderes, fomos com tudo. A gente se abriu, se expôs, deu a cara pra bater e bateram na gente.



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