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Chico trocado em miúdos
Wagner Homem, amigo pessoal do compositor, dá detalhes sobre músicas conhecidas em novo livro
Carolina
Carolina/Nos seus olhos fundos/ Guarda tanta dor/ A dor de todo esse mundo... “Chico Buarque não gosta desta música. Ele escreveu ‘Carolina’ para não ser processado pela Rede Globo. Em meados da década de 60, o compositor foi convidado pela Globo para apresentar um programa chamado ‘Shell em Show’. Depois de aceitar o convite, Chico deu pra trás e não apareceu. A emissora ameaçou cobrá-lo judicialmente pela quebra de contrato. A única maneira de escapar do processo era inscrevendo uma música no II Festival Internacional da Canção. Assim, fez ‘Carolina’: nas coxas e durante uma viagem de avião. O pior é que, em 1968, ‘Carolina’ entrou em um disco de Agnaldo Rayol intitulado ‘As Preferidas do Marechal Costa e Silva’.
Trocando em Miúdos
... Aceite uma ajuda do seu futuro amor/ Pro aluguel/ Devolva o Neruda que você me tomou/ E nunca leu/ Eu bato portão sem fazer alarde... “É difícil o Chico dizer que alguma música nasceu de uma história pessoal. Em ‘Trocando em Miúdos’ não é diferente. O que se tem pra contar desta música é em relação à estupidez da censura da época. A ditadura ameaçou vetar a letra por conta da referência ao poeta chileno Pablo Neruda (que foi do Partido Comunista). Ao tomar conhecimento do motivo estapafúrdio da proibição, Chico disse que não havia nenhum perigo de subversão, já que a moça, embora tenha ficado com o livro, nunca chegou a lê-lo. O incrível é que a desculpa colou. E a música foi liberada.”
Injuriado
Dinheiro não lhe emprestei/Favores nunca lhe fiz/Não alimentei o seu gênio ruim/ Você nada está me devendo/Por isso, meu bem, não entendo/Porque anda agora falando de mim. “Esse samba rendeu polêmica. Houve quem jurasse que ele era uma resposta ao então presidente Fernando Henrique Cardoso. Na época, FHC escreveu um livro com o ex-presidente de Portugal Mário Soares. Na obra, FHC disse que Chico era ‘elitista’ e ‘repetitivo’. Chico sempre negou que ‘Injuriado’ fosse uma resposta aos ataques do presidente. O compositor dizia que nunca chamaria FHC de ‘meu bem’. Acho que a verdadeira resposta do Chico veio durante os shows. Na época, incluiu ‘Quem Te Viu, Quem te Vê’ no segmento de músicas políticas. Acho que, ali, era uma alfinetada em FHC.”
Ode Aos Ratos
... Rato de rua/Aborígene do lodo/ Fuça gelada/ Couraça de sabão/Quase risonho/Profanador de Tumba/ Sobrevivente à chacina e à lei do cão... “Aqui, a maior polêmica do livro - que pra minha surpresa o Chico não fez a menor objeção que fosse publicada. Durante um show, a cantora Mônica Salmaso disse que ao escrever a letra de ‘Ode Aos Ratos’, Chico teria tido dúvidas sobre o fucinho de um rato. Ele queria saber se o nariz do roedor era mesmo gelado. Então, ligou para o amigo, compositor e zoólogo, Paulo Vanzolini. Brincando, Vanzolini disse: ‘Ô, Chico! Você mente tanto sobre mulher... Por que não inventa qualquer coisa sobre ratos?’. De bate pronto, Chico teria respondido: ‘ Pô, Vanzolini... Pelos ratos eu tenho o maior respeito’. As feministas acharam a piada de mau gosto.”
Cecília
...Me escutas, Cecília?/ Mas eu te chamava em silêncio/Na tua presença/ Palavras são brutas/ Pode ser que, entreabertos, meus lábios de leve tremessem por ti/ Mas nem as sutis melodias/ Merecem, Cecília, teu nome espalhar por aí... “O Chico garante que a maioria das mulheres de suas músicas é imaginária. No caso de ‘Cecília’, um jogo de palavras, a possibilidade de sussuro. Ainda assim, Chico lembrou que Cecília era o nome de uma namoradinha que ele teve em Itápolis, interior de São Paulo, por volta de 1965. Cecília ainda é viva e essa história é famosa na cidade. Pior, o marido dela tem o maior ciúme do Chico. Quando a música foi lançada, o site oficial do Chico recebeu uma centena de e-mails para saber se a homenageada era a Cecília de Itápolis.”
LANÇAMENTO
Chico Buarque - histórias... Ed. Leya Preço: R$ 45
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