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Terça-feira, 21 julho de 2009   edições anteriores
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  Classe média compra drogas na cracolândia

Carrões são vistos parando nas ruas do centro para comprar
crack. Consumidores de alto poder aquisitivo chegam também a
pé e de táxi. Prefeitura e polícia alegam ser um problema social

Marici Capitelli e Valéria Gonçalvez

O uso de drogas na cracolândia, região central de São Paulo, deixou de ser restrito aos viciados que frequentam a área e já não é apenas um problema social, como a Prefeitura e a polícia afirmam. O local é um movimentado ponto de distribuição e venda de crack e abastece todas as classes sociais.

link Veja cenas exclusivas do esquema de venda de crack na região central da capital


A reportagem do JT, junto com a TV Estadão, acompanhou o esquema do tráfico nas ruas do centro por duas semanas. Toda madrugada, usuários de classe média e alta chegam a pé, de táxi ou em carros. Um casal, cuja mulher está grávida, em uma só noite esteve duas vezes em um Audi. Mulheres e adolescentes bem-vestidas participam do ‘comércio’. Há leilões relâmpagos, anunciados por ciclistas, e troca de droga por produtos roubados na “feira do rolo”.

Em menos de uma hora, no começo da noite de sexta-feira, foi possível flagrar duas motos, três carros de alto padrão e dois consumidores de classe média, a pé, adquirindo crack no cruzamento das ruas Guaianases e Vitória. De acordo com os moradores, é comum a presença de táxis. “São tantos carros que chegam a fazer fila”, conta uma moradora, vizinha do ponto de venda.

Por volta de 1 da manhã de sexta-feira, ocorreu uma promoção relâmpago que, segundo os moradores, já virou rotina. Durante uma hora, o crack (“bloco” ou “dado”, como é chamado) foi vendido a R$ 5 a pedra. O preço normal é o dobro do valor.

O crack sai pronto de pelo menos três laboratórios nas proximidades. Os bicicleteiros (homens e garotos) pegam a droga nos laboratórios e a levam para os vendedores nas ruas, entre eles, muitas mulheres. Durante toda a noite eles gritam: “Olha o bloco quentinho, acabou de sair o bloco”; “Quem quer rachar um bloco?”; “Só R$ 5”; “Tem por R$ 7”; “Tem por R$4”; “Olha o dado”.

Segundo moradores, um deles costuma usar megafone e anunciar a “droga fresquinha”.

As mulheres que atuam no tráfico têm dois perfis distintos: adolescentes viciadas e jovens bonitas e bem-vestidas. As menores vendem a droga para todos os tipos de clientes. Uma delas, por exemplo, passa a noite contando bolos de dinheiro na esquina das ruas Conselheiro Nébias e Vitória, outro ponto de venda (veja o vídeo na TV Estadão).

As moças bonitas pegam a droga com os bikers ou trazem diretamente dos laboratórios e hotéis. E, no meio dos viciados, elas entregam aos usuários, para que eles a vendam. Elas também costumam fazer as vendas para os clientes mais abastados, nos carrões.

De cabelo chanel bem arrumado e jaqueta de couro, uma jovem distribui as drogas para os dependentes venderem.

Mais tarde, o “pagamento” pelo serviço não é em dinheiro. A moça joga farelos de pedra no chão. O viciado se arrasta na calçada para pegar os minúsculos restos da droga.

Nas esquinas, garotos, garotas e alguns bikers trabalham como olheiros. São eles que dão o alarme que a “loira está chegando” ou a “loira vindo na contramão”. Loira (veja glossário) é a Polícia Militar, que faz a ronda no local, cujo único resultado prático é fazer viciados se movimentarem de um lado para o outro.



GLOSSÁRIO


BAITOLAR - roubar ou furtar

BICHA POCOTÓ - Cavalaria da Polícia Militar

BIRICO - pedacinho de crack

BIRIQUEIRO - pessoa que vende pedaços de crack

BLOCO - pedra de crack

BRISA - sensação de euforia

DADO, DADÃO - pedra de crack FOGÃOZINHO - tipo de

cachimbo (em média R$ 5)

LOIRA - Polícia Militar

MANTEIGA, AMARELINHA, HELLMANN’S,

CRISTALINA - tipos das pedras de crack

MATA QUE É BICHO - a polícia está vindo

NOIA- viciado

em crack

PÂNICA - pedra boa

PIPOCA - pedra

muito ruim

PIPOPÂNICA - pedra muito boa

RADIADA - pessoa há muito tempo sem dormir RATO DE MOCÓ - quem rouba os próprios colegas com quem convive nas ruas

TORNEIRINHA - tipo de cachimbo caro (em média R$ 10)



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