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Domingo, 8 março de 2009   edições anteriores
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  A trajetória de uma rosa até o entendimento

Gilberto Amendola, gilberto.amendola@grupoestado.com.br, escritor e jornalista

Liliana perdeu o controle do carro e atingiu uma banquinha de flores lá da Rua Doutor Arnaldo, em Pinheiros. Debaixo do pneu dianteiro esquerdo da sua Cherokee prateada jazia uma rosa desmaiada.

Mas ninguém viu.

Depois de acionar a seguradora, preencher cheques e lamentar o acidente, Liliana foi embora. A banquinha foi interditada e a vida seguiu sua rota. A rosa ficou lá. Sozinha. Pálida. Copo de leite derramado sobre o asfalto.

Inconsciente, ela foi resgatada por um vira-lata. Thor teve a decência de socorrê-la, prendendo-a pela boca, sem morder seu caule com força. A rosa foi levada até os pés de Totonho Cachaça, pedinte com residência fixa no muro do cemitério Araçá.

O bêbado achou bonitinho, mas fez uma piada grosseira sobre a sexualidade do cãozinho. Na falta de um vaso, depositou a rosa no único recipiente líquido que tinha a mão: uma garrafa de 51.

O choque com o destilado fez com que a rosa despertasse. Tonta, sentiu-se num despacho de macumba, ouviu tambores, viu Ogum e outros orixás do candomblé. Nem sentiu o sol indo embora e a noite chegar.

Totonho roncava quando Priscila, uma gótica de 16 anos, roubou a rosa que estava mergulhada no seu litro de pinga. Com a flor pendurada no bolso da calça, a menina pulou o muro de cemitério para se encontrar com Vanessinha, sua melhor amiga e namorada.

Sentadas no túmulo da poeta parnasiana Francisca Júlia, Priscila e Vanessinha conversaram seriamente. Com a rosa no cabelo, Vanessinha disse que elas não poderiam mais se encontrar, que sua mãe tinha descoberto tudo e que havia um garoto entre elas.

Priscila ficou em silêncio e abandonou o túmulo da poetisa sem olhar pra trás. Vanessinha ainda ficou um tempo por lá - meio que arrependida por ter dispensado sua amiga, meio que aliviada por ter se livrado de uma dor de cabeça. Ao sair, tirou a rosa dos cabelos e deixou-a sobre o túmulo.

O dia amanheceu. A rosa acordou no cemitério. Pensou que tivesse morrido, esperou uma revelação, mas nada aconteceu.

Foi quando surgiu um homem de gestos delicados, idade avançada e roupas antiquadas. Seu nome era Astrogildo Epistóteles. Aos 96 anos, ele se considerava o último fã vivo de Francisca Júlia. Por isso, estranhou aquela rosa tão delicadamente depositada sobre o túmulo de sua parnasiana preferida. “Não estou mais sozinho. O mundo reconheceu o valor e talento de Francisca Júlia!”

Empolgado, Epistóteles segurou a rosa como quem segura um recém-nascido. Com os olhos transbordando, ele deixou o cemitério do Araçá, levando em seus braços a rosa misteriosa.

Então, Epistóteles subiu no ônibus. Sentadinho, segurando a tal rosa, o homem foi alvo da chacota do cobrador - que sem cerimônia comentava com o motorista: “Depois que inventaram o Viagra esses velhinhos andam assanhados demais. Vê se pode...”

Epistóteles entendeu a piada, mas não achou graça. Levantou-se e foi, como um cavalheiro, tirar satisfações com o cobrador. Os dois discutiram. Um xingava. O outro respondia declamando poemas de Francisca Júlia. Mas, depois de uma brecada mais brusca, a rosa escapou das mãos de Epistóteles e voou pela janela do ônibus.

No ar, a rosa pensou que fosse um pássaro, um anjo ou um avião. Livre, sobrevoou avenidas, prédios e automóveis. Respirou seu ar poluído e sentiu na brisa a angústia das nuvens carregadas. A rosa se interessou por tanta gente, odiou tanta gente, amou tanta gente que precisou se despedaçar para não enlouquecer.

Foi uma legítima chuva de pétalas - e os corações de Liliana, Thor, Totonho, Priscila, Vanessinha e Epistóteles foram inundados por um sentimento bom.



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