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Aqui é proibido nascer e morrer
Sem hospital nem cemitério, Biritiba Mirim está em estado de calamidade pública
LAIS CATTASSINI, lais.cattassini@grupoestado.com.br
Ninguém nasce e ninguém morre no município de Biritiba Mirim, a 70 quilômetros da capital paulista. Com cerca de 30 mil habitantes, Biritiba não possui hospital municipal e o único cemitério da cidade sofre com a superlotação. A situação da cidade provocou a declaração de estado de calamidade pública no ano passado, o que foi prolongado para 2009.
Fechado há um mês, o Hospital Dr. Arthur Alberto Nardy possuía poucos recursos (leia mais abaixo). Casos mais graves eram encaminhados a hospitais da vizinha Mogi das Cruzes. Desde que as portas acabaram fechadas, os atendimentos foram transferidos para os três únicos postos de saúde de Biritiba. Partos e cirurgias simples não podem ser realizados.
O Centro de Saúde 3, localizado em frente ao antigo hospital, recebeu os funcionários que deixaram seus cargos e hoje recebe o maior número de pacientes. “A situação está bem controlada. Tudo o que tínhamos no outro hospital temos aqui”, explica a chefe de enfermagem Ana Maria Nascimento. Para os usuários, no entanto, as antigas instalações fazem falta. “No caso da necessidade de uma internação, precisamos ir para Mogi”, protesta a auxiliar de limpeza Maria José Santos, de 42 anos. Há um ano, Maria José cuida da mãe, Maria Edith, que, aos 71 anos, já sofreu três acidentes vasculares cerebrais (AVC) e precisa de cuidados constantes.
Segundo Beatriz Deodoro Prata, do Conselho da Saúde de Biritiba Mirim, a interdição do hospital foi a solução mais razoável para a situação em que o estabelecimento se encontrava. “Eram muitos focos de contaminação, se continuasse aberto, poderia trazer ainda mais problemas para os moradores.” O argumento também é sustentado pelo prefeito da cidade, Carlos Alberto Taino Junior (PSDB). “Quando vimos a falta de condição de atendimento no hospital, ao assumir a administração, só podíamos fechá-lo.” Segundo a prefeitura, a reforma do local custaria seis vezes mais do que a construção de um novo estabelecimento de saúde.
A prioridade da prefeitura é um novo cemitério. Desde 2005, o espaço localizado no centro de Biritiba Mirim não comporta mais os corpos que recebe, cerca de cinco por semana, segundo o coveiro José Camargo Neto, de 53 anos. “Passamos a quebrar as ruas do cemitério para enterrar as pessoas.”
Os corpos começaram a ser empilhados, para aproveitar a área. As covas são rasas, com cerca de um metro de profundidade, e a construção de túmulos é praticamente impossível. “Só resta uma rua para abrir. Logo, não teremos mais espaço”, explica Neto.
Viúvo há um ano, o aposentado Afonso Felipe Filho, de 60 anos, conheceu de perto as dificuldades provocadas pela falta de estrutura em Biritiba Mirim. “Minha mulher precisou ir ao hospital e, pela seriedade do caso, foi transferida para Mogi das Cruzes. Ela morreu no dia seguinte.”
Felipe Filho diz que a ambulância utilizada no transporte de sua companheira não possuía oxigênio ou aparelhos para casos emergência. “Não tem como socorrer quem precisa.” O prefeito admite a falta de estrutura. “A municipalidade não tem ambulâncias. Precisamos alugar uma e equipar outro veículo.”
Felipe Filho lutou para encontrar um jazigo único, com a certeza de que o corpo da mulher não precisaria ser removido.
A cada visita, ele precisa subir em túmulos para chegar à sepultura. “A gente quer o direito de ser enterrado dignamente.”
PERFIL DE BIRITIBA MIRIM
Área total: 414 km2
30 mil habitantes.
3 postos de saúde
2 bancos: Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil
8.500 hectares de Mata Atlântica. Nessa área, é proibido construir indústrias. Plantações já atingiram o limite de espaço
A renda da cidade, segundo o prefeito, é proveniente do repasse de verba do governo estadual
O comércio é pequeno
Grande parte das casas na região é de pessoas que ficam lá apenas nos fins de semana e feriado
Cheia de córregos, a cidade é bastante irrigada
Passam por Biritiba o Ribeirão Biritiba, Ribeirão Lindeiro, Rio Itapanhaú e Ribeirão do Campo
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