| |
O sertão que virou rock
Bandas criam um som novo ao misturar música sertaneja com muito peso
Marco Bezzi, marco.bezzi@grupoestado.com.br
De um lado, o rock e sua rebeldia. Do outro, o sertanejo, com maneirismos e letras de “dor de cotovelo” que chegam a fazer o sertão verter lágrimas. A união de duas partes tão incongruentes só poderia acontecer em um mundo utópico. Porém, para duas bandas que começaram a trilhar seus caminhos nos anos 2000, a alquimia entre a água e o vinho funcionou.
Assista ao videoclipe de ‘Jeito de Boneca’ da banda Comitiva do Rock
Comitiva do Rock e Hardneja Sertacore vestem chapéu de palha enquanto empunham guitarras com muita distorção. “Posso fazer uma pergunta?”, questiona Richard Navarro, o vocalista de 33 anos da Comitiva. “Você quer falar com o Richard ou com o Zezé?”. Zezé Cavalera (fusão de Zezé Di Camargo e Max Cavalera) é o personagem que Navarro encarna quando começa a cantar.
A banda formada em 2004 vem estudando um meio de se estabelecer no mercado. Segundo Navarro, com uma fórmula inédita. “Pegamos clássicos do sertanejo, transformamos as letras e melodias e fazemos nossa versão com uma cara ‘metal caipira’.” Jeito de Boneca, por exemplo, foi criada em cima de Pura Emoção, do Chitãozinho e Xororó. Bem distante da letra original, a versão do Comitiva fala de um cara que se apaixona por um travesti tendo certeza de que se trata de uma mulher. Um dos seus versos é assim: “Cara de menina, piroca de peão / Mas pode enganar qualquer machão / Chegue de mansinho, não seja apressadinho / Senão vai acabar enchendo a mão”. Sutil, não?
Outra vertente que manda bem na fusão entre campo e cidade são os portalegrenses do Hardneja Sertacore. Com pouco tempo de vida, Nigéria, Pablo Nechi, Lucas e Careca já agregam 5.680 participantes em sua comunidade no Orkut. No MySpace (www.myspace.com/hardnejasertacore), canções como É o Amor (versão de Zezé Di Camargo e Luciano) já foram escutadas por mais de 41 mil internautas. Pense em Mim, Temporal de Amor (as duas de Leandro & Leonardo) e Estou Apaixonado (da dupla João Paulo & Daniel) são outras delas.
Curiosamente, nenhuma biografia, nomes reais ou fotos são encontradas nos perfis do Orkut e do MySpace do grupo. “Melhor não publicar fotos da gente. Temos medo de implicarem com o lance de direitos autorais”, fala o vocalista Nigéria, por telefone. “Esse é só mais um projeto que eu tenho”, finaliza, sem querer muito papo.
Sem vergonha de ser caipira
Do lado oposto estão os rapazes do Comitiva do Rock. Segundo sua assessoria - chiques, não? -, o grupo está prestes a assinar com uma grande gravadora. A banda atingiu 132 mil acessos em sua página do MySpace (www.myspace.com/comitivadorockoficial) em 2 meses e meio na base da divulgação boca-a-boca. “Sem fazer TV ou rádio”, deixa claro o assessor.
Seus seis integrantes vestem a camisa do sertanejo/metal. Zezé Cavalera (vocal), Hudson Vai e Ralf Wylde (nas guitarras), Marrone Harris (baixo), Donizete McBrain (bateria) e a vaca metaleira já têm mais de 30 músicas no forno e oito prontinhas para ganhar os celeiros e bares do País. Navarro (ou Cavalera) explica de onde vem essa obsessão pelo campo. “Nasci em Goiás, tive uma infância regada a música sertaneja. Só depois fui escutar rock pesado. Aposto que muita gente também gosta de sertanejo, mas tem vergonha. O Comitiva do Rock chegou pra quebrar essa barreira.”
Quem gostou da ideia foi o músico brega Falcão. O cantor participa da canção Vida de Pedreiro, versão personalizada de Clima de Rodeio, do grupo Dallas. Mamonas Assassinas é a primeira referência que vem à cabeça. “É uma honra ser comparados a eles, mas nunca foi a nossa intenção”, afirma Cavalera na pele de Navarro.
No site www.comitivadorock.com.br não é possível saber de onde vem cada música, mas é possível saber um pouco mais sobre cada integrante. Se o sucesso será alcançado? No ano da Índia no Brasil, nada melhor do que ter uma vaca como guru.
|