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Era uma casa, muito engraçada
Felipe Branco Cruz
As cortinas estão fechadas e ainda faltam alguns minutos para a peça começar. Na coxia, os atores terminam de se aquecer e o nervosismo é aparente. O terceiro sinal é dado. As cortinas se abrem e eles entram em cena. Se errarem, não tem jeito, têm de improvisar. Trata-se de uma peça teatral como outra qualquer, com a diferença de que os atores não estão encenando para um público de ‘carne e osso’. No lugar da plateia, câmeras filmadoras e fotográficas e uma equipe de auxiliares. Nada de aplausos e calor humano. Só câmeras e mais câmeras. O público pode estar na casa ao lado ou a milhares de quilômetros. Não importa, a peça está sendo transmitida pela internet.
Com mais de 15 anos de experiência, os atores da Cia. Auto-Mecânica de Teatro, Renata Jesion, Mauro Schames e Zemanuel Piñero resolveram inovar. Eles montaram o site Teatro Para Alguém (www.teatroparalaguem.com.br) e, como não encontravam teatros disponíveis, transformaram a sala da casa de Renata, de 20m², em um verdadeiro palco, equipado com mais de 15 refletores. A proposta, ao criar o site, segundo Renata, era dar a impressão ao internauta de que a peça realmente é feita dentro de casa mas, nem por isso, de forma amadora.
“É difícil agendar um teatro para apresentarmos nossas peças. São poucos espaços e muitos grupos. Além do mais, já aconteceu de a gente se apresentar para apenas três pessoas na plateia.”
O site, estruturado como uma casa, é dividido em sete cômodos. Todas as peças, no entanto, são encenadas “de verdade” apenas na sala da casa de Renata. “Quem entra no site tem a impressão de que minha casa inteira é um cenário teatral mas, na realidade mesmo, a gente usa apenas a sala principal. De vez em quando, usamos alguns cômodos como coxia e camarim”, fala a atriz.
Virtualmente, a casa impressiona. Na Grande Sala, os atores estão em cartaz com a peça Corpo Estranho, de Lourenço Mutarelli. Trata-se de uma série de pequenas apresentações divididas em 14 episódios filmados em plano sequência, ou seja, sem cortes. “Somos nós três e mais alguns atores convidados. Encenamos para os técnicos que filmam a peça, mas recebemos o carinho do público por meio de e-mails e recados na internet”, explica Renata. “Quando a série acabar, o Mutarelli quer fazer uma segunda temporada. Vai ter mais episódios do que Lost”, brinca.
Toda quarta-feira
O grupo dividiu a peça em pequenos capítulos de até três minutos, até porque dificilmente o internauta tem paciência para ficar em frente ao computador por muito tempo. Toda quarta-feira, às 22 horas, começa uma nova sessão. No segundo andar, na sala de E-Star, os atores encenam peças transmitidas ao vivo para as primeiras 100 pessoas que acessarem. Depois, só é possível ver a gravação. Lá são encenadas mini-peças inéditas escritas por amigos e convidados da companhia. O Sótão é onde são encenadas grandes peças teatrais. Os vídeos também são divididos. Se uma peça tem 50 minutos, ela será dividida em atos de até 10 minutos, para também não cansar o internauta.
Engana-se quem pensa que as peças são ruins. A qualidade do roteiro e dos atores se sobressai. O único ponto negativo é a transmissão por streaming, hospedado em servidor próprio.
O resultado poderia ser melhor se o grupo optasse por publicar os vídeos no YouTube. Mas para isso eles têm uma explicação. “Ainda estamos nos estruturando. Queremos que todos os nossos vídeos fiquem nos nossos servidores, mas não descartamos o YouTube”, explica Renata. “Estamos à procura de patrocínio”, completa. Os cômodos virtuais Quarto, Hall, Porão e Banheiro, completam o cenário (leia ao lado). Em um mês no ar, os integrantes da companhia estão surpresos com o resultado. A página já recebeu 10 mil visitas e levantou o debate: o que eles fazem é teatro, cinema ou internet? Renata explica: “Não é nada disso. Somos atores de teatro. Não abandonamos os palcos. Queremos voltar para lá, mas a realidade hoje é diferente. Minha casa também não é igual à do Big Brother, cheia de câmeras. Elas só são ligadas quando vamos encenar uma peça.”
Por falar nisso, a companhia estreia esta semana a peça 121.023 J, baseada na história do avô de Renata, prisioneiro de um campo de concentração nazista. “Do mesmo modo que este espetáculo foi concebido para ser encenado em palcos reais e agora está sendo encenado na internet, podemos, no futuro, levar as peças virtuais para os palcos de verdade”, diz Renata. O espetáculo 121.023 J está em cartaz no Sótão.
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