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'Temos de preservar o passado para conhecer o presente'
O jornalista da rádio CBN e da TV Cultura fala sobre tudo: de Lula a budismo. Mas entende mesmo é de São Paulo. Em novo livro, Heródoto critica a mania de grandeza e a falta de memória do paulistano
Para ouvintes da rádio CBN, a voz grave de Heródoto Barbeiro, de 61 anos, no noticiário matutino traz o conforto da credibilidade. A mesma sensação têm os espectadores da TV Cultura, emissora que trouxe a ele reconhecimento nacional. Mas a identidade do jornalista é mesmo paulistana, como prova seu novo livro, Meu Velho Centro - Histórias do Coração de São Paulo (Boitempo). Ao JT, ele falou sobre a paixão pela Capital e comentou budismo e política com a naturalidade de quem sabe um pouco de tudo. Nada de erudição, ele assegura. Heródoto só admite ser aprendiz.
Por que escrever sobre o centro?
A idéia era recuperar um pouco aquela região do Centro Velho, que se a gente não tomar cuidado vai perder muito rapidamente. Gosto muito de lá. Meus amigos iam para a Paulista, etc. E eu ia para o centro, a sebos, ao Cinerama. Diziam: “Você é louco, vai ao centro? Vai ser assaltado...” Mas sempre gostei de ir. Freqüento e conheço essa região. Trabalhei como office boy por ali.
Por que o centro pode se perder?
Por causa da especulação imobiliária. Em vez de a gente ter congelado o centro, como se fez em Buenos Aires, Paris, e outros lugares, nós aqui identificávamos progresso com destruir o passado e construir uma coisa em cima. Ainda hoje, no centro da cidade, vários casarões estão ameaçados. Há uma certa euforia paulistana. Tudo aqui é o melhor da América Latina. Isso é uma coisa ridícula. Isso ajudou a derrubar essa cidade. “São Paulo não pode parar. Vamos derrubar tudo e fazer uma nova”.
Você milita contra isso?
Sim. Além de ter uma ligação sentimental, tenho uma ligação cultural porque fui professor de História. E História também se faz em cima da preservação de monumentos.
Há um culpado nisso tudo?
Não diria que tem um culpado. Acho que a cidade foi administrada por muitos políticos e poucos estadistas. Por exemplo, imagine o cara que acabou com os bondes nessa cidade? Porque o bonde representava um atraso. É o fim da picada. O que houve foi a vinda das empresas multinacionais de ônibus, então o cara tirou os bondes. Acho, por exemplo, que o prefeito poderia tirar o asfalto de algumas áreas e os trilhos estão lá, conservados. Poderíamos ter naquela região central um transporte de bonde.
O brasileiro não tem memória?
Claro, se tivesse memória não teria derrubado isso. Quantos museus de história tem na cidade? Tem o Museu do Ipiranga, que é de uma pobreza franciscana. Vou uma vez lá ver o acervo e não volto. Se tivesse exposição itinerante, voltaria.
Qual o papel da imprensa nisso?
A imprensa não é suficiente. Ela tem de relatar o que a sociedade faz, então tenho que organizar meu bairro, provocar um fato e aí a imprensa faz. Aqui no meu bairro teve uma associação que andou tirando placas publicitárias, antes do (prefeito Gilberto) Kassab. Precisamos fazer mais isso na cidade.
Você tem uma opinião formada sobre o governo Kassab?
Olha, não tenho nenhuma opinião formada sobre o governo do Kassab. (risos)
Mas você é a favor dessa lei?
Sem dúvida. Participo dessa discussão antes dele. Foi um avanço.
Seria vereador ou prefeito de SP?
Não, não. (risos)
Como você avalia o ‘Jornal da Cultura’? Há críticas sobre o ritmo do noticiário, a audiência é baixa...
Acho que temos muitas emissoras comerciais com muitos telejornais no ar. A missão da TV Cultura não é fazer um telejornal igual a esses. É procurar um outro tipo de telejornal que provoque mais discussão no telespectador. Agora, gostar é decisão do telespectador. E quanto à audiência, existe a pirâmide cultural... Você tem uma opção de ter um telejornal mais analítico, diferenciado dos demais.
Ampliaria isso para todo o canal?
Olha, estive 15 dias com uma bolsa na BBC. Eles estão muito na nossa frente. A questão fundamental da TV pública é financiamento. Lá pagam 155,5 libras por ano para ter a BBC, e ela ser independente. Por aí você tem uma idéia do nível das pessoas. É uma lei, as pessoas pagam. O dinheiro não vai para o governo, vai direto para a BBC.
É um modelo inatingível para nós?
Não! Acho que no caso da Cultura é um caminho a ser percorrido. O avanço do canal é ter um conselho que representa a sociedade na direção da TV. Isso não tem nas outras.
Mas o conselho funciona?
Funciona, se reúne sempre e se articula com a diretoria executiva que elabora os projetos.
Com a nova direção, o que mudou?
A principal mudança atualmente é a programação, porque o resto não se muda de uma hora pra outra. A questão organizativa, gerencial, se muda gradativamente. O (Paulo) Markun assumiu há poucos meses. Acho que a programação está voltando às origens da TV Cultura.
Que outras mudanças precisariam ser feitas?
Quando se tem uma televisão à sua disposição, a primeira coisa que tem de fazer é perguntar: para quem se está fazendo TV? A Cultura está fazendo programação para o público infanto-juvenil, durante o dia, e à noite, para o público adulto. Tem o Roda Viva, por exemplo.
O ‘Roda Viva’ não está menos confrontador?
No passado, os debates eram mais acirrados, porque era época de abertura política. Hoje não se tem mais confronto político. A imprensa é um reflexo da sociedade.
A sociedade está mais apática?
Acho que sim. Não tem mais tanto confronto trabalhista. Há quanto tempo não se ouve mais falar de greve de metalúrgicos? E a aguerrida CUT? A Força Sindical? Mas acho que as pessoas estão melhores hoje do que estavam há dez anos.
Por quê?
Pega, por exemplo, o número de crianças mortas por tantos mil habitantes. Caiu bastante. Isso é sinal de que alguma coisa melhorou.
Você aprova o governo Lula?
Votei no Lula. Acho que ele tem duas coisas interessantes que não gosta que digam: primeiro que ele é uma continuidade do (ex-presidente) Fernando Henrique Cardoso. Segundo, que ele adicionou ao continuísmo econômico do FHC o fator que não tinha antes, o social, gostem os tucanos ou não. Então, o País está indo bem.
O País está indo bem?
Muito bem. Nunca deu tão certo. No social, tem menos pobres hoje. No salário mínimo, que melhorou. Podem dizer que o Lula errou nisso e naquilo. Todo mundo lá erra e acerta. Vamos pegar no macro.
Você se considera erudito?
Não. Toda vez que pensei ser erudito, vinha alguém e me ensinava alguma coisa. Então é melhor parar com isso. Me considero uma pessoa em constante aprendizado.
Você teve uma fase mais ”louca”?
Olha, que quando tive minha fase louca, digamos assim, devia ter 19, 20 anos, e fui parar num templo budista. (risos) Cheguei na USP e conheci um professor de História da Ásia que me convidou para dar aulas de inglês para a esposa do superior do templo do qual ele era monge. Fui até lá e tinha um casarão enorme. Só que ela não falava português, só japonês. Então perguntei sobre o que era aquilo ali. Era um templo budista. Acabei meditando ali, sem entender direito. Achei que era um desafio e resolvi tentar para ver o que era. Virei budista.
E a famosa paixão pelas Kombis?
Começou porque, como tenho um sítio, a Kombi era a melhor coisa para carregar tralha. Me acostumei de tal forma que essa é minha sexta ou sétima Kombi. Eu e minha mulher pensamos esses dias em comprar uma camionete. Mas aí pensei: na Kombi cabe tudo e ainda podemos dar carona para as pessoas. Resolvi comprar uma Kombi nova. Aliás fiz test drive da Kombi nova. (risos) No final, falei para eles: Por que quando tem test drive de Ferrari vocês não me chamam? (risos)
Mesmo gostando de coisas antigas você não se considera saudosista?
Não! Saudosista é o cara que quer voltar para o passado. Eu não quero. Acho que a gente tem que preservar para conhecer o presente. A Kombi tem 50 anos, mas não compro a antiga. A minha é nova.
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