| |
Maloca, sim. Saudosa, não
Trio de ‘poetas maloqueiristas’ busca espaço na cena, sem saudosismos: “Aqui, só entra poeta vivo”
Georgia Nicolau, georgia.nicolau@grupoestado.com.br
Depois de cinco anos trabalhando numa firma de advocacia como office-boy, o poeta Berimba de Jesus, 26 anos, 2º grau completo, resolveu pedir as contas e criar um selo com um amigo - também poeta. De uma provocação de uma colega do antigo trabalho, surgiu o nome: Poesia Maloqueirista.
E não é que ele gostou? “Maloqueiro tem a ver com as ruas, temos esse perfil de circular pela Cidade”, explica Berimba, ‘registrado em cartório’ Leandro de Jesus.
Ex- atendente de lanchonete e ex-office-boy, Caco Pontes, 26 anos, nascido Carlos, trabalhava havia dois anos em uma operadora de telemarketing quando, um belo dia, resolveu fazer uma intervenção artística na empresa. “Surtei. Fui mandado embora e nunca mais. Resolvi me dedicar ao que eu sempre gostei: poesia e arte”, conta. Conheceu Berimba e se tornou, ele também, um ‘maloqueirista’.
O carioca Pedro Tostes, que já foi quase jornalista, quase psicólogo e hoje estuda Letras, foi o último a entrar na turma. Integrou-se à dupla em 2004, depois de terem se conhecido em um evento de poesia de rua na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Na Cidade há seis anos, a princípio Tostes não gostou do nome. “Achei que era muito relacionado ao hip hop. Acabei aderindo ao ver que não estava restrito a um estereótipo.”
Coletivo completo, o trio produz, desde 2005, a revista literária Não Funciona, que surgiu a partir de um grupo de pesquisa sobre vida e obra do escritor modernista Oswald de Andrade. O nome, além de ter a ver com o espírito irreverente do trio, veio de uma poesia visual de Oswald. Mas se engana quem pensa que Oswald ou outros literatos canonizados têm espaço na revista. “Oswald de Andrade já ‘fundou’ a revista. Então, que esteja em paz”, brinca Caco. “A gente não tem nada contra os mortos, adoramos Drummond, Fernando Pessoa, mas achamos que eles não precisam de mais visibilidade. Queremos valorizar quem está aí, vivo”, complementa Tostes.
A proposta da revista é veicular autores de diversos estados e circuitos literários (desde que vivos, claro), reunindo desde autores já reconhecidos como Marcelino Freire e Glauco Mattoso ou poetas da chamada literatura periférica. “Queremos pegar as pessoas que estão produzindo literatura hoje, independente de qual circuito literário. Não vamos formar uma patota”, explica Berimba. A venda é feita em pontos culturais da Cidade como as praças Roosevelt e Benedito Calixto, cinemas do circuito da paulista, Vila Madalena e museus. “Ir para a rua é encarar o mundo, estar disposto a encontrar todo tipo de gente. Somos autores com tradição de veicular trabalhos nas ruas. Não vamos ficar vendo nossa oportunidade passar”, explica Tostes. “Não sejamos hipócritas: se uma grande editora bater à minha porta eu não vou dizer não. Enquanto isso não acontece, não vou ficar chorando em casa. Não temos aquele papo de gênios incompreendidos.”
Desde o início do ano, com incentivo do programa de Valorização de Iniciativas Culturais (VAI) da prefeitura, a revista, que está em sua décima edição, se tornou mensal, aumentou sua tiragem para 1.500 exemplares e permitiu que o trio produzisse sem ter de utilizar recursos próprios. E, afinal, ser poeta é profissão? “Como outra qualquer: trabalhamos todos os dias editando a revista, procurando texto para outra edição, participando de projetos”, explica Berimba. “Dá para sobreviver, pagar aluguel. Cinema, só se eu ganhar convite”, diz Tostes. Para conhecer mais sobre os maloqueiristas, acesse o site.
|