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Na biblioteca, sem livros
Quase metade dos freqüentadores não tem interesse por livros. Querem é usar a internet e assistir a um filme
GABRIELA GASPARIN, , gabriela.gasparin@grupoestado.com.br
Cerca de 40% dos freqüentadores das 55 bibliotecas municipais não vão até elas com o intuito de ler, mas sim para participar de atividades que não envolvem leitura de livros. Eles vão até os locais para conferir a exibição de filmes, usar o telecentro (espaços mantidos pela Prefeitura com acesso grátis a computadores) ou até mesmo para beber água e ir ao banheiro. A informação é baseada nos relatórios anuais de freqüência das bibliotecas de 2001 a 2006, coletados pelo Sistema Municipal de Bibliotecas, da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.
De 2001 a 2004, quando eram computados como usuários todas as pessoas que entravam nas bibliotecas, a média anual de freqüência era de 3,3 milhões de pessoas. Em 2006, o método de contagem mudou e passaram a ser registrados como freqüentadores somente os usuários do acervo de livros ou revistas - para consulta ou empréstimo. Resultado: o número caiu para 1,8 milhão de pessoas no ano.
De acordo com a coordenadora do Sistema Municipal de Bibliotecas, Marta Nosé, o método de contagem do público mudou justamente para chegar a um dado mais real de quantos são os leitores. 'É necessário conhecer o perfil dos usuários para atrair mais pessoas às nossas programações', afirmou.
Para matar a sede
Atualmente, as pessoas que vão às bibliotecas para outras atividades, como o uso dos telecentros, são incluídas em um relatório à parte. Quem entra só para beber água nem é mais registrado. É o caso do flanelinha Vicente Pereira Borges, 37 anos, que trabalha há cinco anos perto da Biblioteca Cora Coralina, em Guaianases, Zona Leste. 'Entro para beber água e usar o banheiro umas sete vezes ao dia, mas não assino o livro de freqüentadores', afirmou. No entanto, Borges nunca se interessou nos livros do acervo. 'Ainda não tive essa idéia.'
Desempregado, Fábio Fernandes, 38 anos, caminha diariamente 45 minutos para ir até a mesma biblioteca e acessar os computadores do telecentro em busca de uma vaga de emprego. 'Não alugo os livros porque acho que são antiquados.'
A situação se repete em outras unidades, como na Biblioteca Monteiro Lobato, no Centro, onde o operador de telemarketing Mennael Nogueira, 20 anos, vai duas vezes por semana para ensaios teatrais.
Há um ano, as estudantes Carolyn Tomé e Karina Pereira, ambas de 14 anos, vão diariamente na Biblioteca Afonso Schimidt, na Freguesia do Ó, Zona Norte, para usar o telecentro. 'Nunca vim para pegar um livro, não gosto de ler. Usar o computador é mais prático', contou Carolyn. Ambas acessam a internet para entretenimento.
Para Claudia Riolfi , professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), o desinteresse pelos livros é conseqüência da falta de identificação que a sociedade tem com a leitura.
'Para grande parcela da população, o livro não tem significado nenhum e não faz diferença. Por isso, as pessoas procuram as bibliotecas como lazer', disse.
Claudia diz acreditar que a existência de atividades culturais dentro das próprias bibliotecas são importantes para despertar o interesse das pessoas para a leitura. 'É mais fácil buscar um livro quando a pessoa já está dentro da biblioteca, mesmo que seja por outro motivo.'
OS NÚMEROS DA LEITURA EM SÃO PAULO
40% dos freqüentadores não vão às bibliotecas públicas para ler
1,8 milhão de pessoas usam o local para consultar ou pegar livro emprestado
17 é o número de telecentros que serão instalados neste ano nas bibliotecas
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