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Domingo, 1 julho de 2007   edições anteriores
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  A perigosa solução do dia seguinte

Pílula gera comportamento de risco entre os adolescentes

FERNANDA ARANDA, fernanda.aranda@grupoestado.com.br

Em um pequeno comprimido, recheado por altas doses de hormônio, meninos e meninas enxergam a chance de remediar o que aprontaram depois das baladas. Mas o mesmo medicamento que afasta a chance de entrar para o grupo de pais adolescentes também pode abrir as portas do comportamento de risco. A pílula tinha sido elaborada apenas para um eventual 'dia seguinte' de falta de proteção sexual. O atual consumo errado da cápsula provoca uma overdose de problemas para 'todo o sempre'.

Quando chegou ao mercado farmacêutico, em 1999, a missão da pílula do dia seguinte era ser o último recurso de quem foi vítima de estupro, de uma camisinha furada ou esqueceu de tomar um comprimido da cartela de anticoncepcional . Oito anos depois do aparecimento, o mau uso desse recurso virou vilão. Uma pesquisa realizada pelo Programa Estadual da Saúde do Adolescente revelou que, de cada 10 meninas que recorrem à pílula, seis não usaram nenhum tipo de prevenção na hora do sexo.

'Essa é uma geração que nasceu depois da epidemia da aids e perdeu um pouco do medo da doença', afirma a coordenadora da pesquisa Albertina Takeuti. 'Como a gravidez aparece como uma possibilidade mais imediata, os adolescentes encaram na pílula do dia seguinte uma fórmula mágica. O erro é que era para ser o último recurso, mas muitas vezes é o primeiro.'

O estudo foi feito entre novembro de 2006 e fevereiro deste ano com 178 adolescentes da Capital com idades entre 14 e 17 anos. Do total, 120 tinham vida sexual ativa e 35% afirmaram ter usado a pílula de emergência pelo menos uma vez na vida. 'Há dois anos, quando fizemos a mesma pergunta , foram 20% que afirmaram o uso.'

Nas portas das escolas de São Paulo, a gestação precoce é o único grande temor do sexo sem proteção. As doenças sexualmente transmissíveis (DST) nem aparecem na lista de problemas citados. 'Na minha classe tem uma menina que está grávida. Já um jovem com aids eu nunca conheci', justifica Fernanda Minguini, 16, estudante do ensino médio. 'As pessoas acham que a pílula do dia seguinte é a solução pra tudo. Tenho conhecidas que compraram o remédio na farmácia antes de transarem', disse a estudante Mariana Botero, 17.

O perigo de transformar a pílula em único recurso preventivo fica evidente nas estatísticas de um estudo do Ministério da Saúde feito no ano passado. Em São Paulo, participaram 1.214 pessoas, entre 15 e 60 anos, e 60% confessaram que não usam preservativo em todas as relações sexuais. 'Pensar que o sexo desprotegido não traz doença faz com que as pessoas sintam-se totalmente seguras apenas com o anticoncepcional e a pílula do dia seguinte', diz a psicóloga Elvira Filipe, do Centro de Referência em Tratamento de Aids e DST de SP.

Os dados mostram que a juventude não está blindada contra o HIV. Desde 1991 até junho de 2006 (último balanço) foram 12.537 casos novos de aids apenas na faixa etária entre 20 e 24 anos, em São Paulo.

Além de não proteger as doenças, o uso contínuo da pílula do dia seguinte, segundo os médicos, provoca efeitos colaterais e diminui sua eficácia. 'A pílula é uma superdosagem de hormônio, que pode provocar náusea e alteração do ciclo menstrual', afirma o coordenador da Saúde da Mulher do Município, Júlio Mayer. 'Se usada sempre, o corpo já não entende mais o que significa o turbilhão de hormônio.'

Os especialistas ouvidos pela reportagem ressaltaram que a pílula é muito importante e não deve ser abolida. O remédio, inclusive, faz parte do programa de planejamento familiar da Prefeitura que distribui 7 mil cartelas por mês. 'Nos postos de saúde, as pessoas só recebem após falar com o médico ou enfermeiro.' Já nas farmácias, onde o preço da pílula vai de R$ 13 a R$ 20, não há nenhum rigor. 'Infelizmente, grande parte das farmácias só quer lucro. Vende a pílula, sem explicar as conseqüências', diz o presidente do Conselho Federal de Farmácias, Jaldo Santos.

R$ 20
POR PÍLULA

é o preço máximo pago pelas clientes nas
farmácias, onde não existe nenhum tipo de controle sobre a venda do medicamento

35%
DOS ADOLESCENTES

com idades entre 14 e 17 anos entrevistados na Capital afirmaram ter usado a pílula de
emergência pelo menos uma vez na vida



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