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Sexta-feira, 29 junho de 2007   edições anteriores
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  Decepou dedo de professora

NAIANA OSCAR, naiana.oscar@grupoestado.com.br

Era com a mão direita que a professora Eunice Martins dos Santos, 47 anos, passava a lição no quadro-negro. Isso até a última quarta-feira, quando a ponta do seu dedo indicador foi decepada por um aluno de 9 anos, que sofre de problemas neurológicos.

O intervalo já tinha terminado na Escola Municipal de Ensino Básico Marineida Meneghelli de Lucca, na Vila São Pedro, em São Bernardo do Campo. Eram 16h30 e os alunos estavam em fila para voltar à sala de aula quando o estudante da 4ª série Maicon (nome fictício) saiu correndo entre as crianças e esbarrou na professora Eunice - segundo ela, agressivamente. O menino correu para o banheiro e ela foi atrás. 'A turma dele já estava em sala de aula. Eu queria levá-lo para a classe e conversar sobre sua atitude', contou.

A professora tentou entrar, mas Maicon fechou a porta com tanta força que uma parte do dedo dela foi parar no chão. 'Quando vi o sangue pensei que fosse dele, não estava sentindo dor. Só depois me dei conta de que eu é quem estava machucada', disse Eunice. 'Minha mão pingava sangue e ele dava risada.' A professora foi socorrida imediatamente mas não conseguiu reimplantar o dedo. 'Ele sempre apronta na escola, quebra tudo, agride todo mundo', disse Eunice, que também dá aula para a 4ª série numa sala ao lado da de Maicon.

Contada assim, a história impõe ao menino o papel de vilão. Mas quem o conhece percebe que ele é apenas mais uma vítima. Aos 5 anos de idade, Maicon foi encaminhado ao Conselho Tutelar de São Bernardo porque a mãe o agredia. Ele foi apresentado aos conselheiros com marcas no rosto e com um quadro crônico de desnutrição. Desde então é acompanhado por psicólogos e assistentes sociais. Aos 2 anos de idade, os médicos diagnosticaram que Maicon tem problemas neurológicos. Agitado e agressivo, ele toma diariamente medicamentos controlados.

A mãe o abandonou há dois anos para morar com o namorado. Quem cuida dele é a avó aposentada Amália Ferraz, de 67 anos. 'Fiquei muito triste quando soube do que aconteceu. Ele é um menino diferente dos outros, mas não me incomoda, é obediente.', disse.

A professora agredida diz que o aluno não deve ser punido, mas pede providências. 'Ele deveria ficar numa sala própria, não com crianças normais. E nós também não temos capacidade para administrar situações desse tipo.' Ontem, ela registrou um boletim de ocorrência e disse que vai recorrer à Justiça para que a família do menino pague os medicamentos e até a cirurgia de reconstituição. Dona Amália, que sustenta ela e o neto com dois salários mínimos por mês, já disse que não vai poder ajudar.

O conselheiro tutelar de São Bernardo Sérgio Hora defende que o poder público ofereça ao menino um atendimento especial na escola, sem que ele seja excluído. 'Não podemos criminalizar o Maicon. Ele é só uma criança que sofre de problemas neurológicos.'

A secretária executiva do Observatório Ibero-Americano de Violências nas Escolas, Miriam Abramovay, afirmou que o caso de Maicon e da professora Eunice, apesar de se configurar como uma agressão ao professor, deve ser avaliado de forma particular por conta dos problemas de relacionamento apresentados pelo menino.

Em nota, a Secretaria de Educação e Cultura de São Bernardo informou que tomará as providências necessárias para preservar a integridade de alunos e professores.



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