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Palavra e som de mestre
Ennio Morricone fala com exclusividade de suas composições para as telas
Luiz Carlos Merten
Em fevereiro, Ennio Morricone recebeu seu Oscar especial da Academia de Hollywood. Anteontem à noite, realizou, no Teatro Municipal, do Rio, o concerto de abertura do evento Música em Cena, que está trazendo ao País grandes compositores de cinema para discutir a atividade com seus colegas brasileiros e o público. Morricone teve de voltar várias vezes ao palco, aplaudido de pé pelo público que o fez bisar alguns números do programa. A participação da soprano no número dedicado a Era Uma Vez no Oeste, a participação do coro em Abolição, da trilha de Queimada, tudo isso levou o público ao delírio. Só quando o maestro pegou suas partituras e as colocou debaixo do braço, as pessoas se convenceram de que as duas horas e meia de concerto - precedidas de um discurso do ministro da Cultura, Gilberto Gil, lido por José Wilker, que, de tão apologético e tedioso, provocou irritação e até vaias da platéia -, estavam terminadas. Morricone estava de excelente humor. Já havia estado assim, na sexta-feira, quando interrompeu o ensaio - após repetidos ‘bravos’ para a Orquestra Petrobrás, que regeu - para subir ao Pão de Açúcar. A reportagem conseguiu acompanhá-lo. No alto da Urca, antes de subir ao Pão de Açúcar, Morricone sentou-se num banco e, naquela paisagem deslumbrante, concedeu a seguinte entrevista:
O senhor já disse repetidas vezes que sua música não é pano de fundo. O que é exatamente a música para cinema?
Penso que a boa música de cinema possui função estrutural e não decorativa. É assim que trabalho, pensando em servir ao filme e ao diretor, para que ele consiga dizer o indizível pelas palavras.
E como é o método de trabalho de Ennio Morricone? Vamos pegar duas cenas de filmes de Sérgio Leone - a abertura de ‘Era Uma Vez no Oeste’, na estação de trens, e ‘O Êxtase do Ouro’, de ‘Três Homens em Conflito’...
Mas o começo de Era Uma vez no Oeste não tem música. O que temos ali é uma utilização do ruído.
Mas logo começa a música que cria a verdadeira estrutura da cena. Depois da espera, temos a dramaticidade do confronto. A partitura foi composta antes?
Sim. Aquele é um dos exemplos de partitura que foi composta antes da filmagem. Às vezes, são necessários pequenos ajustes, mas Sérgio Leone) adaptou as imagens ao tempo da música. O caso de O Êxtase do Ouro foi inverso. Criei a partitura a partir da cena montada.
Já houve algo que o senhor não conseguiu fazer?
Creio que me permiti, e os diretores me permitiram, testar o suficiente para atingir bons resultados. Claro que fiz coisas que não deram certo, que necessitaram correções.
O senhor não acha que certos filmes exibem música demais? O silêncio, às vezes, vale ouro...
Existe uma música do silêncio. Aquilo que você definiu como música no começo de Era Uma Vez no Oeste é ruído. O zumbido da mosca, o ruído das botas no estrado de madeira, o apito do trem. O ruído, o silêncio e a música podem bem coexistir em cena. É necessário perceber o valor dramático de cada um.
Que compositores que o influenciaram?
Você diz compositores de cinema? Nenhum! Admiro compositores da era clássica de Hollywood, mas não teria me tornado Morricone se os tivesse copiado. Minha formação foi clássica - Bach, Palestrina, Lorenzo Calvi. Acho que o estilo desses grandes artistas pode dar uma boa base, mas nada substitui a experiência. Se cheguei a ser o compositor que sou, foi pela vivência e a parceria com os grandes diretores com quem trabalhei.
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