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“Não quero saber do livro do Roberto. Tenho a minha vida”
Erasmo Carlos
O ‘Tremendão’ não está nem aí para a biografia de seu eterno parceiro. Pudera. Erasmo lança novo disco, escreve sua biografia para ser lançada no ano que vem e continua a fazer shows por todo o Brasil
São 27 anos que separam o primeiro Erasmo Carlos Convida desta segunda edição, lançada agora. De 1980 pra cá, o Tremendão da jovem guarda pintou as manchetes muito mais por polêmicas como o suposto caso com Roberta Close e as vaias no primeiro Rock in Rio do que com suas composições.
Com fôlego de adolescente, Erasmo, 66, convocou seus amigos Chico Buarque, Gilberto Gil, Kid Abelha e Los Hermanos - entre os 12 que participam do novo CD lançado pela gravadora Indie Records- para cantar sucessos de sua extensa carreira que cobre mais de quatro décadas. Todas elas dedicadas à música popular brasileira.
Por que só agora, depois de 27 anos, surgiu a idéia de lançar um segundo volume?
Quando fiz o primeiro, a gravadora logo quis colocar um segundo volume nas lojas. Mas esse não é um projeto oportunista, não vou ficar rico assim. Há cinco anos pensei em retomá-lo. A primeira pessoa que encontrei foi o Lulu Santos, no aeroporto. Na hora ele disse que gostaria de cantar Coqueiro Verde. Os outros convidados foram aparecendo no critério da afinidade.
Como assim?
Mas troca uma coisa. Essa palavra afinidade é muito Big Brother. Melhor falar identificação. Marisa Monte, Zeca Pagodinho, Kid Abelha e Adriana Calcanhotto já haviam gravado músicas minhas. Compus a trilha do filme O Casamento de Romeu e Julieta com o (Marcelo) Camelo, do Los Hermanos e os chamei. O Skank havia gravado uma versão arrasadora de É Proibido Fumar.
Dá pra perceber pela gama do seus convidados que você é querido por diversas gerações. Mesmo assim, a sua carreira não deslanchou. Você não se sente injustiçado?
Bicho, eu agradeço todo dia o que me acontece. Estou super feliz. Só de estar vivo, trabalhando, ganhando troféus, fazendo shows. Não tenho do que reclamar.
Talvez a palavra não seja injustiçado, mas mal compreendido, pois você sempre esteve à frente da sua época. A fase do roqueiro com cara de bandido, a mistura do samba com o soul que gerou o samba-rock.
A minha geração viveu tudo e acabei sendo influenciado por uma avalanche de coisas. Rock’n’roll e bossa nova ditaram a minha carreira no início dela. Mas me considero um cara livre pra experimentar. O Paulinho da Viola, por exemplo, tem que fazer samba sempre. Já eu fiz ópera, tango, valsa, tudo.
E a cara de bandido vem daquela fase do final da década de 50 na sua turma com o Tim Maia e o Jorge Ben nos subúrbios do Rio?
Era uma turma da pesada. Fomos presos várias vezes. A gente gostava de aprontar. Fazíamos muito barulho, tanto na rua quanto dentro de ônibus, em lugar proibido. Aí vinha a prisão, mas nada muito sério. Ficava uma noite e saia no outro. O delegado perdoava, mas prendia o violão. Logo aparecia outro e tome barulho de novo.
Mas essa pecha não te fechou algumas portas?
Pra mim isso é um elogio. As pessoas que me conhecem sabem que é apenas a cara. Meu coração é do tamanho de um bonde. Mas nunca me fechou portas. Sei que muita gente não gosta de mim por causa da minha cara. Já escutei gente falando: “esse sujeito bebe todas, é chato”. O meu biotipo afugenta muita gente.
Mas isso virou uma marca sua.
Porque fiz músicas como Minha Fama de Mau, Lobo Mau. Acabei aumentando a lenda.
E hoje os roqueiros brasileiros parecem muito bonzinhos.
Por que hoje tudo é descartável. Não dá nem tempo das pessoas que têm valor aparecerem. Tem o lance do jabá, tudo cresceu muito. Quanta música boa é lançada mas não toca na rádio. O mundo é muito cruel hoje em dia.
E voltando pra trás, depois da turma da Tijuca você conheceu o Roberto Carlos e praticamente lançou ele pro estrelato.
Eu prefiro dizer que foi o destino que nos uniu. Quem sou eu pra lançar ele? Conheci o Roberto na Tijuca mesmo. Ficamos amigos e acabamos compondo juntos. Todos os detalhes vou contar no meu livro.
Ah, então você vai fazer uma autobiografia?
Não. São crônicas, fatos engraçados e curiosos que aconteceram na minha vida. Com Caetano Veloso, Roberto Carlos, Gilberto Gil, Milton Nascimento. Não tem fofoca, nem nada. Estou escrevendo há um ano e deve sair em 2008.
Mas não tem medo de levar um processo do Roberto?
Como é que eu vou saber? Se eu escrever alguma coisa que ele não gostar, posso ter o mesmo problema.
E sobre toda essa polêmica sobre a biografia dele?
Eu não li, pois não quis me influenciar para o meu livro. Aliás, não li nenhum livro sobre o período e nem gosto de ler em geral. Mas não vejo o Roberto desde o Natal, época em que eu gravei o especial dele na Globo.
Mas você que conhece ele tão bem deve ter uma idéia do porque ele teve essa reação de tirar o livro de circulação.
Eu cuido da minha vida. Estou lançando um disco, escrevendo um livro, fazendo shows. Como é que eu vou saber o que passou na cabeça dele? Não estou preocupado com o livro dele. Estou preocupado com a minha vida. Não quero saber do projeto dos outros.
E você tem saudade do tempo da Jovem Guarda?
Não quero reviver aquele momento, mas mato a saudade toda a hora com os shows do revival da Jovem Guarda. Na real, tenho saudade mesmo da minha juventude, não apenas do movimento.
Mas não deve ter saudade do Rock In Rio, em 1985, quando você foi escalado na noite do heavy metal e saiu do palco vaiado e xingado?
O Brasil não sabia que existiam tribos naquela época. Os organizadores pensaram que a música fosse unir todos os povos, que tudo fosse uma coisa só - como deveria ser, na realidade. Mas isso é uma utopia. Ninguém foi culpado daquilo.
Um pouco antes você havia lançado a música ‘Close’, que era sobre um travesti. Todo mundo ligou à música a Roberta Close (famoso travesti brasileiro da época).
Até hoje falam disso, que eu tive um caso com ela. Mas falam de mim como falam absurdos de outras pessoas também. A música nem é para, nem é sobre a Roberta Close. Tem coincidências de ela ser um travesti e do nome Close. O imaginário do povo que botou a música para a Roberta Close. Mas não me arrependo de maneira nenhuma. A música fez um sucesso enorme, um monte de gente gosta, e até hoje é uma das músicas mais pedidas.
Mas e o clipe em que ela aparece?
Aí foi armação da gravadora, com o meu consentimento. Eles não perderam tempo. Chamaram ela pra fazer o videoclipe. A música vendeu muito e tudo cresceu de um jeito que ninguém podia imaginar. Conheci a Roberta Close depois e ela é uma pessoa muito legal, nunca se aproveitou disso pra se promover. Cresceu no meu conceito, inclusive.
E depois de tantas idas e vindas, como você acha que é visto pelo público e como gostaria de ser lembrado?
Eu não sei como as pessoas me vêem. Quero ser lembrado como um grande compositor brasileiro. Honesto e digno pra caramba.
E existe um Erasmo Carlos na nova geração?
Essas coisas só o tempo que diz. Não é de qualquer movimento que aparecem grandes artistas. São poucos os que ficam. Muita gente se perde pelo caminho.
E um disco seu com o Roberto, não vai sair nunca?
Esse é um projeto imaginário, porque não é nossa intenção. Nunca passou pela cabeça de nenhum dos dois. Seria aproveitar do povo e a maturidade não permite esse tipo de comportamento. Ele é cantor e eu não sou, sou compositor. Jamais dividiria um disco inteiro com um cantor.
Ah, pra finalizar, porque você não aparece na capa do seu novo disco?
Ah, seria muito ego. Eu produzi, cantei, toquei. Estou recebendo os meus convidados e achei melhor a capa sair com a foto deles.
PASSA O TEMPO
Erasmo Esteves nasceu na Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro, em 1941. Já adolescente, começou a fomentar seu gosto musical com muito Elvis e Bill Haley. O encontro com Roberto Carlos mudou sua vida para sempre
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