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Poluição dá o tom no córrego de favela
Na Zona Norte, águas mudam de cor todo dia. Empresa têxtil pinta tecidos e joga resíduos no lugar. Situação não é ilegal e é monitorada pela Cetesb
GILBERTO AMENDOLA e TIAGO QUEIROZ
De dentro dos barracos, moradores espiam pelo vão da porta. A expectativa toma conta de homens, mulheres e crianças. Será que é hoje que o córrego da favela da Funerária, no Parque Novo Mundo, na Zona Norte, irá se transformar em um “rio de sangue”?
Alívio no ar. Por volta das 13h, o povo da favela já sabia que aquele não era o dia de ver o córrego vermelho. Ontem foi a vez da tinta preta, foi o dia do córrego virar uma piscina de nanquim. “Moro aqui há 26 anos, esse córrego muda de cor todo o dia. Já vi ele ficar azul, amarelo, verde e roxo”, contou José Severino da Silva, 65 anos, morador da favela da Funerária.
Esse “fenômeno” acontece desde o fim da década de 50. No início, os moradores se assustavam bastante. Na época, teorias sobre a coloração das águas surgiam a cada conversa entre donas de casa ou papo de boteco. Até “castigo divino” já foi mencionado como responsável pelo eventual “vermelho” do córrego. Hoje, a coisa é bem diferente. Qualquer um na favela da Funerária pode responder com clareza de onde vem aquela tinta. Aliás, a maioria dos moradores também pode levar o interessado até a origem de tantas cores: a Biselli.
Trata-se de uma empresa localizada na Rua do Berimbau (ao lado da favela), que atua como tinturaria têxtil. No local, são pintados fios, fibras e tecidos. As cores que aparecem no córrego são os resíduos de tinta despejados, ali, pela Biselli.
Engana-se quem pensa que a empresa está em desacordo com a Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental). Por incrível que pareça não é proibido jogar corantes na maioria dos rios e córregos da região metropolitana de São Paulo.
A legislação ambiental do Estado divide os chamados “corpos d’água” (rios, córregos, represas etc.) em quatro classes. Os corpos d’água definidos como classe 1 ou 2 são aqueles em que a água pode ser usada para abastecimento e irrigação, como a Represa Billings, por exemplo. Nesses casos, a legislação proíbe a emissão de qualquer corante.
Já nos casos dos córregos da Cidade e dos rios Pinheiros e Tietê, que são catalogados como classe 4, não existe nada específico contra o despejo de corantes. “Para esses rios, a legislação só proíbe o despejo de ferro, sulfeto, sulfato e outros produtos tóxicos. Não existe nada em relação a tinta”, disse o gerente ambiental da Cetesb Mauro Kazuo Sato.
Aliás, o gerente da Biselli, Gian Franco, faz questão de mostrar a estação de tratamento de água que existe dentro da empresa. “Trabalhamos de acordo com a Cetesb. A água jogada no córrego está livre de produtos tóxicos e impurezas. A tinta não representa risco”.
Para o educador ambiental do S.O.S Mata Atlântica, Gustavo Veronesi, a legislação é absurda e aposta no “já que está ruim pode ficar pior”. Veronesi lembrou que os corantes também possuem química e por isso poluem e acabam com as chances de o córrego se recuperar. “No final das contas, a química dessa tinta vai parar no Tietê. Essa não é uma legislação inteligente”, diz.
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