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Mil perguntas a Mano Brown
>E as respostas de um rapper que não quer ser ídolo
JÚLIO MARIA, , julio.maria@grupoestado.com.br
Sentado em uma das cadeiras de plástico da sede do Capão Cidadão, Mano Brown estava rodeado por crianças, jovens e senhores, todos atrás de respostas para dilemas nem sempre fáceis de responder. O rapper permitiu que o JT participasse do que virou uma rara sucessão de depoimentos, muitos dos quais Brown jamais fizera em público.
Garoto de dez anos: Brown, canta um rap aí para nós?
Mano Brown: Devagar, garoto. Faz uma pergunta da hora primeiro, espero você pensar.
Garoto de sete anos: O que você sentiu quando ouviu uma música dos Racionais pela primeira vez?
Mano Brown: Ouvi pela primeira vez no rádio. Era um domingo, 1990. Estava sol e a primeira música do programa foi Pânico na Zona Sul, a primeira música que eu fiz... Imagina um cara que não tem escolaridade ou perspectiva ouvindo a voz dele no rádio. Não sei expressar em palavras o que eu senti. Não me senti 'o cara' porque não tinha como. Com uma calça furada e um tênis velho, você não se sente 'o cara', sente-se um pouco diferente. Lembro de que fomos participar de um concurso de rap e, na primeira rima, já erramos. O cara falou: 'vocês são ruins'. Cheguei nervosão, sentei na mesa, o cara: 'senta na cadeira'. Já fui caindo. Na hora em que fui cantar, já errei. Ah, voltei para casa arrasado. Achava que não tinha condições, mas persisti.
Adolescente: Que música dos Racionais você mais gosta?
Brown: O Homem na Estrada foi uma música que fez com que as pessoas mais velhas ouvissem Racionais, os malandros mais antigos, os 'nego véio' que gostavam de samba. Aquela que me marcou legal foi Fim de Semana no Parque. Foi quando eu deixei o casebre e fui morar na Cohab (risos).
Jovem de boné: As letras de rap não influenciam a violência.
Brown: O rap tem suas falhas, mas vejo um grande número de crianças de 14 anos que já querem ter o corpo da Carla Perez. O rap tem suas falhas, mas todos os gêneros têm. Não me agrada ver as meninas de 10 anos rebolando até o chão. Uma coisa que é vendida pela mídia é que a mulher, para ser bem-sucedida, tem que ter peitão, corpão. Se tem algo que segura a periferia nas costas é a mulher. Se procurar aqui, de dez casas, cinco têm um homem dentro. A maioria é mãe que vive sozinha. As mulheres são a sustentação da periferia.
Psicólogo: Qual seria a saída para a questão dos preconceitos que os ricos têm para com os pobres e os pobres têm para com os ricos?
Brown: Enquanto houver ser humano, preto, branco, rico, pobre, vai haver diferença. O preconceito é sobre os que têm e os que não têm. Não estou usando aquele discurso social, não. Não é ter a camisa, o celular. É você não ter a informação, não ter como chegar de igual para igual com um cara da classe média porque ele fala mais do que você, fala inglês, acessa a internet. É o fato de você chegar e não ter como entrar, sentir-se excluído, que faz nascer o preconceito. Não vou chegar, aquele playboy me barrou. Quando um cara fala não para mim, fala não para o meu irmão, para minha mãe, meus camaradas. E quando você fala não para um playboy, está falando: 'não quero saber de você, da sua mãe, do seu pai, dos seus amigos'. É isso.
Moradora: Muitos jovens começaram no rap depois dos Racionais e depois terminaram. O que fez o grupo continuar por tanto tempo?
Brown: Quando você consegue juntar três pessoas, quatro pessoas no rap, pode ter certeza de que são quatro problemáticos. Gente que tem problema de dinheiro, problema com ele mesmo. Não há uma disciplina porque sempre os problemas de fora interferem na vida dele. Se você tem um parceiro com problema, tem que entrar no problema dele, entrar em contato com a mãe, com o pai, com o irmão. Muitas vezes, o grupo não tem estrutura.
Uma jovem estudante : As pessoas procuram o rap por ser uma forma de expressão ou por dinheiro?
Brown: Os dois. Há alguns irmãos que estão no rap há 15 anos e que ainda não conseguem viver disso. Não vou dizer que ele perdeu, mas deixou de ganhar algumas coisas. Da mesma maneira que o samba dá dinheiro, que o rock dá dinheiro, o rap também tem que dar dinheiro. O cara não tem que ter vergonha de ganhar dinheiro com o rap porque é um dinheiro digno. Agora, você não pode colocar o dinheiro como prioridade. Como você vai se manter fazendo música e falando com as pessoas se não consegue sobreviver? Chega um momento em que sua família começa a desacreditar de você, fala: 'olha, você é um bom rapper, mas não sabe viver'.
O mesmo garoto de dez anos que, no começo, Brown pediu para pensar em uma pergunta 'da hora': Brown, o que significa quando você canta 'se quer guerra, terás. Se quer paz, quero em dobro'?
Brown: Significa um momento de raiva, de revolta. Se quer paz, eu quero mais do que você, mas se quer guerra, vou fazer o quê? Vou morrer? Preferia que você, com sua idade, não me perguntasse isso. É uma pergunta difícil e você é muito novo para pensar nessas coisas.
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