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Segunda-feira, 10 julho de 2006   edições anteriores
VARIEDADES
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  A Igreja me excomungou. E nada mudou na minha vida

Excomungado pela Igreja e censurado pela ditadura, Odair José vive sua segunda encarnação. Trinta e seis anos depois de se lançar como artista, vira garoto-propaganda e prepara show com MV Bill em Brasília

Julio Maria, julio.maria@grupoestado.com.br

O senhor vai para Brasília?

Sim, vou cantar com o MV Bill.

E o que o senhor tem a ver com ele?


Vou fazer uma parte do show e ele outra. Vamos fazer alguma música que eu não sei bem qual. Não o conheço, minha praia é outra.

Não se pode dizer que o senhor também fez canções de protesto?

Tive problemas com a ditadura porque alguns temas incomodavam essa sociedade falsa, hipócrita. Sempre cutuquei coisas que as pessoas não gostavam. O cara aceita que o filho dele transe com a empregada doméstica mas não aceita que ele se case com a empregada. O cara acha bacana sair do serviço e transar com uma prostituta antes de voltar para casa mas não aceita que um cantor diga que vai tirar uma puta de uma boate para casar com ela. Essa é a sociedade hipócrita.

Afinal, o que acontece? O senhor passa anos fora da mídia como um rejeitado e, de repente, grupos regravam suas músicas, pesquisadores lançam livros sobre sua vida, jornalistas o procuram e o senhor vira garoto-propaganda do Credicard?


Não sei mesmo. Sei lá, penso que em 36 anos de carreira não tinha como me manter na mídia o tempo todo. E eu devo ter feito alguma coisa mesmo que vale a pena ser lembrada. Sinto que os lugares que me chamam para fazer shows são bem mais qualificados, que me dão uma estrutura melhor. Eu tenho notado que para trabalhar está ficando mais fácil. Quanto às propagandas, achei ótimo. De repente, sou convidado a fazer campanha de um produto que até então ninguém imaginava que poderia fazer.

O senhor falou em censura. ‘Vou Tirar Você Desse Lugar’, música que canta no comercial, não foi censurada na época da ditadura?


As pessoas não sabem, mas a música Vou Tirar Você Desse Lugar foi a primeira obra com a qual a censura implicou. Foi a partir dali, em 1972, que a ditadura passou a olhar meu trabalho de lado. Achavam que a frase se referia aos militares, que era para tirar eles do poder.

Os militares o chamaram?

Não, porque essa música vendeu 1 milhão de compactos na época. E naquela ocasião não existiam tantos toca-discos no Brasil. A música vendeu mais discos do que a existência do aparelho. Fizeram uma reportagem na época perguntando às pessoas por que elas compravam aquele disco se nem tinham o aparelho. E elas respondiam: “Estou comprando porque quando comprar o aparelho vou ter o disco.” A partir dessa música a censura se tornou um co-produtor dos meus discos.

Como censuravam tanto alguém que nunca falou de política?

Não era só conteúdo político o que era censurado. A ditadura censurava conteúdo que julgava imoral. Uma vez me colocaram frente a frente com o General Golbery para saber porque censuraram uma música minha que se chama A Primeira Noite de um Homem. A música falava da primeira vez de um homem com uma mulher. Eu perguntei: ‘General, eu queria saber o que é que pode ser mudado?’ Ele me disse: ‘Pelo que estou vendo aqui, o que está proibido é a idéia’. Eles proibiam a idéia.

O culto que se faz ao senhor também não pode ser uma mentira? No fundo, quem chama você para shows não quer ridicularizá-lo?


Às vezes sim. Já aconteceu de me convidarem para eventos como a noite do cafona, a noite do brega. A festa, em si, era uma gozação e você está sendo chamado para compor aquela gozação. Por outro lado, canto para jovens. E jovem não tem preconceito. Quem tem preconceito é a pessoa que acha que já tem uma posição na sociedade, que acha que assumir tais gostos pega mal.

Ou seja, a gente vai ficando velho e ficando preconceituoso.

Ficando velho e ficando babaca.

E qual o seu preconceito?

Não tenho. Sempre ouvi de Herbie Hancock a Luis Gonzaga. Há discos de jazz bons e ruins. O Tom Jobim tem um disco dele, por exemplo, que é muito ruim. Não é tudo o que o Tom Jobim fazia que era bom.

Mas há a idéia de que música boa é música difícil.


É muito difícil fazer uma música de três acordes, mais difícil do que fazer uma música cheia de acordes. Vi o Carlos Lyra falando em uma entrevista como se a música dele estivesse acima do bem e do mal, como se fizesse a música suprema, além da perfeição. Não há a coisa do tipo ‘nós da bossa nova’ ou ‘nós de Ipanema’. O músico não pode ter essa visão. ‘Nós somos especiais, então você que anda de ônibus não cante nossa música’. Até porque o cantor-mor da bossa nova, João Gilberto, veio do interior da Bahia e nunca foi garoto de Ipanema.

Há muitos músicos que desprezam música de três acordes.


Manda fazer uma. É a coisa mais difícil que tem. Parabéns pra Você tem três acordes, faça outra! O Luiz Gonzaga com Asa Branca. Quando os Beatles pensaram em gravar uma música brasileira, não pensaram em bossa nova. Pensaram em Asa Branca, do Luiz Gonzaga. Chegaram até a fazer os arranjos, só não saiu no disco. Na hora do vamos ver, mudaram de idéia.

Essa história é verdade mesmo?


Sim, o Luiz Gonzaga já estava contando com a grana que ia receber e com o prestígio que isso iria dar. Essa história aconteceu. Soubemos que os Beatles chegaram a bolar arranjos, mas o projeto não virou.

E é verdade mesmo que o senhor foi excomungado pela Igreja Católica?


Sim, pelo bispo de Campo Grande. A Igreja escolhe uma pessoa que faça isso. Até tinha me esquecido disso. O João Gordo me disse: ‘Ah, esse cara foi excomungado. E eu que fiz tanta merda não consegui ser’. Sou cristão e o fato de ser cristão não quer dizer que seja ligado à Igreja Católica. Acredito em tudo o que Jesus falou, mas não acredito em muita coisa que o padre fala. A Igreja deixou de ser Jesus há muito tempo. Não me lembro de Jesus mandar matar, como a Igreja fez na Inquisição. Por eu colocar isso em canções, a Igreja se incomodou.

Quais canções?

A música Cristo, Cadê Você?, de 72, diz: ‘Pra onde você foi?/Cadê a sua cruz?/Venha me dizer/Quem é você Jesus?’ E, em 78, fiz um disco chamado O Filho de José e Maria, que me levou a ser excomungado. Eles acharam que estava fazendo uma brincadeira com a vida de Jesus.

Alguém o chamou para avisar que estava excomungado?

Nada. O cara (religioso) fala: ‘Está excomungado o fulano de tal por tal razão’. Você só pode ser excomungado se for batizado pela Igreja.

Na prática, um excomungado não pode mais entrar na Igreja.

Nem sabia disso, continuo entrando. Quem vai policiar?

No final dos anos 70 bateu uma crise e o senhor achou que tinha que evoluir. Acha que evoluiu?

Era uma época em que queria crescer como músico. Achava que o ciclo daquele meu trabalho, com músicas como Pare de Tomar a Pílula, tinha acabado. Fiquei dez anos fazendo uma coisa só. Não queria fazer aquilo a vida toda.

E o senhor continuou cantando a música da pílula.

Continuei. Confesso que o disco O Filho de José e Maria era um projeto único, não uma iniciação de nada. As gravadoras foram contra e perdi muito com aquilo ali, fiquei perdido. Não sabia se fazia a pílula ou outra coisa. Fiquei uns seis anos fazendo discos em cima do muro.

E aí o senhor voltou à pílula.

Você tem que aceitar que está errado, em qualquer situação da vida. Estou lançando meu 31º disco. Na verdade, acho que só uns dez ou 15 são bem-feitos. O resto tem muita coisa ruim. Eles são, às vezes, a tentativa de se fazer uma coisa melhor.

Qual deles é o melhor Odair José?

É o que narra histórias. A nostalgia, a saudade, o amor e a dor- de- cotovelo batem no coração de um pedreiro da mesmo forma que batem no coração do intelectual. A dor de ver uma mulher que se ama ir embora é a mesma para todo mundo.

Mas um intelectual de fossa vai ouvir Mozart.

Não importa, a saudade vai ser a mesma. A vontade de chorar vai ser a mesma, a insônia vai ser a mesma. E é nesse tipo de coisa que eu sou bom.



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