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Patriotismo para a casa não cair
Moradores de favela exibem uma imensa bandeira. Está lá desde janeiro, para conter a encosta em caso de chuva. Coincidência com a Copa tem divertido moradores
GILBERTO AMENDOLA, gilberto.amendola@grupoestado.com.br
No mês da Copa do Mundo a Cidade se veste de verde e amarelo. Quem não gosta de futebol ou implica com esse tipo de ufanismo costuma se perguntar: para que tanto patriotismo?
Os moradores da Favela do Jaguaré, na Zona Oeste, têm uma resposta na ponta da língua: "Para evitar que um deslizamento de terra destrua os nossos barracos."
Uma bandeira do Brasil, colocada na encosta de um morro, é a "garantia" de que nenhum morador será soterrado durante um temporal. "Quando chove a gente se assusta com o tanto de terra que desce. Daí, um compadre comprou essa lona gigante e teve a idéia de pendurá-la aí. Até agora, está tudo certo", contou o desempregado Francisco da Costa, 33 anos.
Aliás, ele está começando a construir um novo barraco bem embaixo da bandeira. A "obra" deve ficar pronta em dois meses. Naquele pedaço de chão devem morar seus três filhos e esposa. "É rezar para não chover e contar com a ajudinha da bandeira", afirmou Costa.
A tal bandeira já está na favela desde o início do ano. "Não colocamos aí por causa da Copa do Mundo, mas gostamos da coincidência", contou Costa. "O helicóptero da Globo filmou a gente também. Estamos ficando famosos", completou.
Todos ali se divertem com a ironia do lema "Ordem e Progresso" pintado naquela lona. Afinal, essa "gambiarra" patriótica representa muito mais a "desordem do progresso" (a falta de moradia e a desocupação irresponsável de algumas regiões). Além disso, a bandeira também tem suscitado um debate sobre a Seleção Brasileira. "Ela é a nossa defesa, nosso paredão. Podemos chamar de Dida, Lúcio ou Juan. Se o Brasil perder a casa cai", brincou o filho de Costa, o Fabinho, de 13 anos.
Na torcida para não chover e para a Prefeitura não "embaçar", os moradores da Viela do Campo (na favela do Jaguaré) já preparam churrascadas e fogos de artifício para os próximos jogos da Seleção. "Vamos comemorar aqui embaixo da bandeira. Quem sabe ela não dá sorte para o time?", comentou o morador Alexandre Santos, 33 anos. "Nossa comunidade é muito alegre. Não tem festa melhor na Cidade. O Brasil tem que trazer o caneco para a gente", afirmou.
Desempregados e sem-teto vão fazer daquele lugar um talismã. Costa e sua família são patriotas. Eles esperam que o maior símbolo nacional não enterre seus sonhos e "pertences". "Quanto mais essa bandeira segurar o morro, mais patriota eu fico", brincou Costa.
Perfilados ao lado da bandeira, os moradores invertem o sentido do Hino Nacional: "De amor e de esperança a terra NÃO desce... Dos filhos deste solo és mãe gentil, Pátria amada, Brasil!", cantaram em coro.
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