A Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor (Febem) teve quebrada ontem a rotina de 134 dias sem motins no Complexo do Tatuapé e foi mais uma vez palco de uma grande rebelião, que durou onze horas e meia e deixou 57 feridos - 41 funcionários e 16 adolescentes. A rebelião começou nas unidades 12 e 23 e se espalhou por 7 das 17 unidades. Apesar da violência do motim, não houve fugas.
À tarde, começou um novo tumulto na Unidade 20, que foi incendiada, com mais cinco feridos. Cerca de 460 dos 1.228 internos participaram da revolta. Nenhum dos 62 feridos corre risco de morte.
A rebelião que atravessou a madrugada de ontem começou por volta das 20h30 de anteontem, por razões ainda não esclarecidas. Para a Febem, o começo foi uma briga entre internos. Os menores disseram a um ouvidor da Febem que reivindicavam o fim do regime de castigo a que estariam sendo submetidos os internos da Unidade 14 e a demissão do diretor. A Febem disse que eles não estavam de castigo.
Segundo um funcionário da Unidade 12, os internos anteciparam para as 20h25 o ritual em homenagem ao Primeiro Comando da Capital (PCC), que ocorre às 22h. Depois disso, teria começado uma movimentação e em seguida, a rebelião. "A gente aqui dentro é palhaço. Quem manda são eles", disse um funcionário.
A mãe de um interno da Unidade 14 disse que os espancamentos são quase diários há pelo menos três semanas. Seu filho teria ficado sem um dente e com hematomas na boca depois de ter sido chutado no rosto. "Eles humilham, pegam o que trazemos para eles, até as roupas." Os espancamentos teriam sido o real motivo para o início da rebelião, diz a presidente da Associação de Mães e Amigos de Crianças e Adolescentes em Risco (Amar), Conceição Paganele.
Segundo ela, a rebelião se expandiu porque policiais da Tropa de Choque da PM espancaram internos da Unidade 14. "Os meninos das alas próximas perceberam e foram ao telhado pedir providências. Perdeu-se o controle."
Segundo o advogado Ariel de Castro Alves, do Movimento Nacional de Direitos Humanos, boatos de transferência de internos à antiga Penitenciária Feminina, anexa à Febem, também contribuíram para o motim. A Febem não confirma a transferência, mas pode recorrer a ela caso as unidades tenham sido destruídas.
Os cerca de 200 homens da Tropa de Choque da Polícia Militar, entre Cavalaria, Grupamento Aéreo, Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) e Rota, só conseguiram controlar a rebelião por volta das 8h05. Alguns policiais desceram de rapel às unidades amotinadas a partir de helicópteros. Por volta das 14h45, houve nova confusão. Internos da Unidade 20 atearam fogo nos colchões e subiram ao telhado, de onde atiraram telhas nos funcionários.
A Tropa de Choque voltou ao complexo. Até funcionários saíram correndo. A PM conteve os cerca de 90 rebelados com tiros de balas de borracha, gás-pimenta e bombas de gás lacrimogêneo.