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Segunda-feira, 27 março de 2006   edições anteriores
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  A voz e o marketing

Cauby Peixoto, aos 72 anos, revive seus anos de ouro em uma tradicional casa de shows de São Paulo. Ao fim das apresentações, seu camarim é cercado por jovens e senhoras em busca de autógrafos. Fruto do mais puro marketing nos anos 50, 60 e 70, Cauby não tem pudores ao falar das estratégias para ser um ídolo. Um personagem, para alguns, maior que sua própria música. Por Júlio Maria

Jornal da Tarde - Os fãs estão ali na porta gritando por um autógrafo do senhor. Cauby Peixoto está na moda?

Cauby Peixoto - Nossa! Nem sei o que dizer. Eu acho que, no fundo, o brasileiro é muito musical. Ele sabe muito de música, é eclético, gosta de todos os gêneros. Canto uma música americana como My Way e ela é aplaudida de pé. Esse ouvido que o brasileiro tem é fantástico. E felizmente estou nesse grupo dos cantores mais queridos do Brasil.

As pessoas, contudo, se lembram do senhor mais ou menos do que deveriam?

O que fica mesmo é a voz. Eu já cantei vários ritmos, twist, cha-cha-cha, rock and roll. Uma grande voz é sempre mais lembrada do que uma medíocre. As pessoas sabem quem tem voz e quem não tem. Eu acho que o que está acontecendo agora é o seguinte: os filhos e os netos de minhas fãs estão me curtindo e cantando comigo músicas também jovens, porém muito bem feitas, como Como Uma Onda, do Lulu Santos. A Conceição ficou na cabeça das pessoas. Cauby - Conceição, Conceição - Cauby. Isso não tem jeito, ficou no coração das minhas queridas fãs. E os filhos delas hoje conhecem minha história.

As pessoas ainda sabem quem tem voz e quem não tem?

Sabem. E sabem o que é moda. E entram na moda sabendo que aquilo é só uma moda. Quando vem outra moda, elas entram, sabendo que aquilo também é moda. Elas sabem quem é e quem não é.

O senhor disse certa vez: 'Antes eu berrava, tive que aprender a cantar.' Foi isso mesmo?

Isso, claro. Antes de começar a cantar, eu tentava imitar Orlando Silva, meu grande ídolo. Mas eu cantava muito alto, eu berrava, Quem tirou isso de mim foi meu irmão, que é pianista. Cantei depois um pouco de jazz, graças a esse meu irmão, o Moacyr Peixoto. E tive medo de cantar samba por causa do meu primo, o Ciro Monteiro.

A crítica dizia que o senhor cometia muitos excessos como cantor. Em algum momento o senhor deu razão às críticas?

Em algum momento eu quis parar de cantar, largar minha carreira.

Por quê?

Eu não tinha a capacidade que alguns poucos artistas têm de encarar com naturalidade quando são citados, criticados em alguma reportagem mais maldosa. Eu quis deixar a carreira. Eu não era maconheiro, não me envolvia com tóxicos, mas falavam tudo de mim. Uma vez fui a uma reunião na Argentina com pessoas da televisão. Fomos na casa de um grego que era traficante, eu não sabia que ele era isso. Quando voltei ao Brasil, um brasileiro foi pego com esse traficante e deu meu nome à polícia em vez de dar o nome dele. Aí me acusaram de envolvimento com drogas. Eu já estava no Brasil. Aquilo foi um escândalo. Eu ia comprar um terreno na época, no Rio de Janeiro, não pude comprar porque meu nome ficou sujo. Isso me deu uma vontade de deixar tudo.

O que o reergueu?

O meu padrinho artístico, o empresário Di Veras, que era muito inteligente, perguntou o que estava acontecendo comigo. Ele ouviu e disse: 'Faz o seguinte: canta e deixa o resto comigo'. Ele foi sensacional. Fazia reportagens mentirosas que funcionavam como meu marketing. Ele passava aos jornalistas histórias como 'Quando Cauby canta as meninas desmaiam'. Era mentira. Mas a notícia era boa.

Era mentira aquela história de que o senhor havia colocado a voz no seguro?

Mentira. Ele dizia que eu havia segurado a voz em 3 milhões de cruzeiros. Isso chamou muito a atenção. Uma vez apareceu um rapaz parecido comigo e ele plantou a história de que aquele rapaz era meu filho. Não era nada disso.

O senhor acertava com ele essas mentiras de marketing?

Muitas coisas eu nem sabia. Mas fui um bom aluno, um ótimo aluno. Fazia exatamente o que ele queria.

E deu certo?

Certíssimo. Depois ele me levou para a América e eu consegui gravar lá. Ensinei Luar do Sertão para Marlene Dietrich.

Nesse momento os fãs de Cauby que aguardam na porta do camarim para serem atendidos começam a cantar em voz alta a música 'Conceição'... Cauby se emociona.

Olha lá fora que maravilha.

O senhor usava mesmo um terno que era preparado para desmanchar ao primeiro toque de uma fã?

Era sim. Eu usava às vezes, quando ia a programas de auditório. Eu saía pela frente do prédio para que todas me agarrassem. Quando faziam isso saía tudo nas mãos delas. Chegou um dia que eu saí de cueca correndo. Cueca não, calçãozinho.

Quando é que foram descobrir que tudo isso era marketing?

Essa história de rasgar era verdadeira. Eu tinha uma tesourinha que emprestava a elas quando queriam um pedaço da minha gravata, um cacho do cabelo, uma coisa assim. Eu deixava, aquilo ia me... Fui tão atencioso com elas que elas deixaram um outro ídolo, o Francisco Carlos, para ficarem comigo. Ele era muito pedante, arrogante. E eu era mais simples. Di Veras dizia para mim o seguinte: 'Quando você olhar para uma moça, olhe para todas, são todas suas fãs'.

E com isso o senhor nunca namorou uma fã?

Não, não namorava. Eu tinha casos, elas apareciam. Tive uma grande paixão que meu irmão pediu que eu deixasse...

Nesse momento um fã impaciente dá um grito na entrada do camarim: 'Cauby, eu te amo!'

Meu irmão fez com que a moça fosse para Portugal porque o ex-namorado dela poderia me matar. Foi o maior drama que tive com fã.

As fãs não eram contratadas para gritarem pelo senhor?

Não, isso não tinha. O problema é que nós não tínhamos seguranças na época. Então eu saía abraçado a elas para lá e para cá.

O que o senhor seria sem seu empresário?

Talvez eu nem existisse, meu querido. Não saberia fazer o que ele fez, de jeito nenhum. Um homem de marketing não tem preço. Ele é a principal figura. Se eu fosse desafinado, um mau cantor, talvez eu fosse o Cauby Peixoto do jeito que sou. Quando vejo qualquer notícia no jornal sobre mim, guardo com muito carinho, seja ela qual for.

Por quê?

Porque eu sei o valor de se ter isso. Até mesmo a crítica destrutiva, eu guardo tudo. Se bem que a crítica sempre reconheceu em mim o cantor, depois o resto. A gente não consegue enganar. Tenho 52 anos de carreira, não estaria aqui cantando hoje se não tivesse voz. O sucesso é a voz. Mas essa coisa de ir olhar a moça, dar um beijinho, ser simples, isso me sustenta.

Há um momento em que o senhor conhece e passa a admirar muito Ney Matogrosso. Isso muda algo em seu jeito de cantar? (Cauby, aparentemente, não entende bem a pergunta).

Não, não muda nada. As pessoas têm o direito de achar e pensar o que quiser. Eu não tenho esse problema, nunca tive. Uma vez chamei um garoto da minha rua de viado e levei uma surra do meu irmão mais velho, sabe?

Nesse momento, os fãs, ainda mais impacientes, gritam de novo para se despedir. Cauby pára e se emociona outra vez.

É bom você escrever isso que está acontecendo. Olha que honra, não é? Um homem passar por isso. É demais isso. É uma coisa que transcende.

Um fã consegue furar o bloqueio da segurança e se aproxima: 'Cauby é a apoteose do máximo e a sublimação do divino. Acompanho esse homem há 50 anos'.

Bem, o senhor dizia que apanhou de seu irmão.

Apanhei porque chamei um rapaz de viado. E eu, como toda a garotada, transava com ele. Fazíamos uma fila e íamos lá, um de cada vez. Quando fiquei famoso, passei a respeitar as fãs. Nunca seduzi uma garota, olhava para todas com o mesmo carinho.

Hoje o senhor não olha para trás e se arrepende por não ter aproveitado mais? Não deveria ter tido mais mulheres?

Sou muito liberal, mas não gosto que pessoas cheguem perto de mim e se apaixonem. Vivo pela amizade, tenho muita amizade com as mulheres. Amizade talvez maior do que com os homens. Há maridos que chegam para mim dizendo que suas mulheres me amam.

Os homens o procuram?

Sim, beijam, abraçam. Não vejo problema, vem carinho, vem carinho que é bom e eu gosto.

Muita gente conhece o senhor pela figura, pelo personagem, mas não conhecem sua música. Não teme que o personagem tenha ficado maior que a artista?

Ainda não. Acho que o que sou é cantor mesmo. Há milhões de rótulos, mas quem corre na frente é o cantor. Eu pergunto às pessoas chegadas a mim, às minhas fãs, como está a voz. Saio do show perguntando como está minha voz. Sempre quero sair do palco com esse aplauso que você viu.

Outro fã interrompe gritando da porta: 'Cauby, autografa um livro, Cauby, por favor'. Cauby atende o pedido enquanto fala.

Isso me faz bem. Isso me faz bem. Eles querem qualquer coisa, mas querem. O dia em que eu perder isso, será o final.



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