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Subsolo: desarmando a bomba
Antonio Carlos dos Reis 'Salim'
Alguns acidentes ocorridos recentemente no subsolo de São Paulo, como o curto-circuito em cabo elétrico no centro da cidade e os freqüentes rompimentos de adutoras de água, exigem que se retome o debate sobre tema que, há vários anos, vem sendo objeto de alerta do Sindicato dos Eletricitários do Estado de São Paulo: a ausência de mapeamento do subsolo da Capital, maior cidade da América Latina e uma das cinco maiores do Planeta, cujo subterrâneo abriga milhares e milhares de quilômetros de canos de água e esgoto, fios elétricos, inclusive de alta tensão, cabos telefônicos e de televisões por assinatura, tubulações de gás e as novas redes de fibra óptica.
Ou seja, trata-se de um labirinto minado, apresentando risco para a população, dificuldades crescentes para a manutenção dos serviços e suas estruturas de distribuição e, sobretudo, para os trabalhadores, que, a cada descida ao subsolo, para reparar um problema ou atuar na ampliação das redes, expõem-se à incerteza de um acidente. É inadmissível não haver um mapeamento de todo esse emaranhado de fios, cabos e tubulações sob uma metrópole com 17 milhões de habitantes como a Grande São Paulo.
Numerosos desses serviços, como os de eletricidade, telefonia e gás (transferidos a concessionárias privadas) e de TV por assinatura são prestados por empresas particulares. A rigor, apenas o tratamento e a distribuição de água e a coleta de esgotos seguem em mãos de uma companhia de economia mista. O processo de privatização de serviços públicos, contudo, não exime o poder estatal de sua responsabilidade quanto ao bom atendimento e tampouco quanto à segurança da população.
Assim, é justo e pertinente que a sociedade cobre a realização urgente de um trabalho de mapeamento às prefeituras dos municípios da Grande São Paulo e ao governo do Estado, por meio de suas secretarias e organismos que tenham interface com o problema. As empresas concessionárias desses serviços também devem colaborar, realizando e disponibilizando o mapeamento de suas respectivas redes. Tal procedimento, mesmo exigindo investimentos iniciais, seria benéfico para a sociedade, os trabalhadores e as próprias empresas, pois elas gastariam menos com manutenção, indenizações e reparo de erros.
No caso específico dos eletricitários, a privatização das companhias do setor no Estado gerou um fator agravante: as concessionárias privadas demitiram grande número de profissionais, optando por mão-de-obra inexperiente e, em muitos casos, pela terceirização dos serviços. Desta maneira, trocaram trabalhadores experientes e que tinham razoável orientação sobre o subsolo da Região Metropolitana por funcionários com total desconhecimento desse verdadeiro labirinto sob a metrópole. Multiplicou-se, assim, o risco de acidentes.
O Sindicato dos Eletricitários chegou a elaborar, há quatro anos, proposta de mapeamento em parceria com empresa especializada no assunto. A meta era consubstanciar legislação sobre o tema, mas não houve interesse por parte da Prefeitura. O problema de São Paulo, aliás, deve servir de alerta a todo o País, pois é recorrente em outras capitais e cidades de grande porte. Seria até mesmo o caso de elaborar lei federal sobre a questão.
A questão do subsolo da Grande São Paulo é muito grave. Acidentes mais sérios podem ocorrer a qualquer momento. Não se trata, aqui, de semear gratuitamente o medo, mas simplesmente de tornar evidente um tema que as autoridades e as próprias concessionárias de serviços públicos têm tratado com inconcebível negligência. Depois de qualquer ocorrência, nada resolvem entrevistas eloqüentes, desculpas vazias e a tradicional esquiva das responsabilidades, na tentativa de imputar culpa aos outros. Afinal, sob o estigma da omissão tornam-se perenes alguns dos problemas que mantêm o Brasil no subdesenvolvimento.
Antonio Carlos dos Reis "Salim" é presidente
da Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT),
do Sindicato dos Eletricitários de São Paulo
e da Federaluz
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