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Segunda-feira, 20 fevereiro de 2006   edições anteriores
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  Motoboys no trânsito: correm, reclamam, morrem

E agora poderão ganhar faixa exclusiva na Marginal do Tietê. São de 80 mil a 100 mil. Estão entre os 270 motoqueiros que morreram na cidade, só em dez meses do ano passado. Saiba por que correm tanto.

VALDIR SANCHES

Aldemir Martins, o Alemão, tem oito pinos na perna direita, a clavícula esquerda deslocada, um olho que não fecha bem e um dedo estragado. Fala rápido como um motoboy no trânsito. Aldemir é o presidente do Sindmoto, o sindicato dos motoboys da cidade.

Em seus acidentes teve sorte. Escapou de figurar na lista de motoqueiros mortos no trânsito: 270, só de janeiro a outubro do ano passado. Na média, quase um por dia. Aumento de 40% em relação a 2004, o ano anterior (dados da Companhia de Engenharia de Tráfego, CET).

Esses números levaram a CET a uma decisão: dar aos motoqueiros uma faixa exclusiva na Marginal do Tietê, onde ocorrem 10% dos acidentes com o pessoal das duas rodas. A CET revelou a novidade na quinta-feira. Ela agradou Alemão, do sindicato, que diz ser essa uma reivindicação antiga.

Sobre o papel de motoristas e motoboys nas estatísticas, Alemão diz: "No duelo das ruas, cada um quer defender o seu território." Os motoboys aceleram: quanto mais correm, mais ganham.

No grid de largada, na Cidade, o pelotão principal é o das motos a soldo das mais de mil boquetas, empresas clandestinas. São de 80 mil a 100 mil motoboys (as fontes divergem), só em São Paulo.

Ganham cerca de R$ 6,50 por hora, para fazer entregas (na verdade R$ 13, porque o contrato mínimo é de duas horas). Podem ir com calma? Não, porque, quanto mais rápido liquidarem a missão, mais cedo voltarão à base para pegar outra. Ao mesmo tempo, o celular vai tocando. É sua clientela particular, passando serviço.

Tiago Bambrini, 26 anos, é dos que estão nessa roda viva. Diz que incidentes no trânsito, de manhã, lhe são "toleráveis". Fechada de um carro, por exemplo. "Mas, no fim do dia, com a cabeça cheia, você quer matar o cara." Ou, então, "sem querer você bate o guidom no retrovisor do cara." "Ele começa a gritar, aí junta o pessoal (motoboys) e já viu, né?"

Tiago trabalha numa empresa da Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, Jardim Paulista. Ele e os colegas ficam na garagem, com as motos, à espera. Quando uma campainha soa, é a hora. O primeiro da fila sai rápido.

Os que atendem ao mesmo tempo outros clientes, tiram, dizem, uns R$ 60 por dia. Mas R$ 15 vão para a gasolina. E há ainda os custos de manutenção da moto e outras despesas. A rapaziada trabalha com moto própria.

E se o motoboy se acidenta? Carlos dos Santos, 27 anos: "Se você se acidenta, vai querer o seu direito. Se não resolve, parte para a agressão. Quem está certo ou errado, eu não sei. É o meu ganha-pão que está ali."

O problema é que "o cara vende o almoço para comer a janta". "Se não trabalha, não ganha. Não tem dinheiro, não tem férias, seguro, nada. E precisa consertar a moto e cuidar dos ferimentos."

Uma outra categoria é o pessoal do delivery, que entrega comida. Ganha dos restaurantes uma diária ao redor de R$ 10 por período (almoço ou jantar), mais R$ 1 a R$ 2 por entrega. Quanto mais entregam, mais ganham. Têm uma folga por semana, quando não cobrem a de um colega.

"Eles acabam não vivendo", diz Fábio César, presidente de uma cooperativa de entregadores de comida (que dá seguro e previdência). Fábio admite que eles não podem ser "uma tartaruga". Mas reclama do que está nas ruas: "É uma guerra."

Entre os motoboys irregulares (os das boquetas) estão os cachorros loucos, assim chamados por Alemão, do sindicato, "embora eu não goste de falar o nome". São os mais agressivos, fazem manobras de arrepiar os cabelos. Alemão situa esses entre os motoboys que voam para tentar atender a vários pedidos ao mesmo tempo.

E também "a garotada", os que tiram carta para dirigir, não têm experiência e viram motoboys.



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